visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 13 ago 20:12

"Todos os árbitros deviam ter a coragem de dizer publicamente qual é o seu clube"

"Todos os árbitros deviam ter a coragem de dizer publicamente qual é o seu clube"

Em entrevista à VISÃO, o ex-árbitro e atual comentador Duarte Gomes diz que é preciso combater a ideia de que os árbitros são "aliens que andam no futebol para fazer mal ao jogo". E condena a mentalidade de ganhar a todo o custo que se enraizou nos escalões mais jovens, onde há cada vez mais as agressões entre pais ou a árbitros e treinadores porque "todos querem ter o seu Cristiano Ronaldo para orgulho pessoal e sustento da família"

Kickoff, ou pontapé de saída, é o nome do livro que Duarte Gomes acaba de lançar no mercado, a par do site homónimo www.kickoff.pt, com o propósito de sensibilizar os adeptos para a dificuldade de arbitrar um jogo de futebol.

O ex-árbitro, nascido há 
44 anos no Funchal, dedicou-se à escrita para desmistificar também alguns dos processos mais enigmáticos da arbitragem, como as nomeações e as notas, e corporizar uma tentativa de apaziguar a desconfiança em torno dos homens do apito. Utopia? O antigo bancário, agora na pele de comentador de arbitragem depois de mais de 400 jogos dirigidos na primeira categoria (1997-2015), acredita que não. E dispõe-se a disseminar a sua fé nas livrarias e na internet para que nenhum árbitro volte a sentir um punho fechado na cara ou a enfrentar ameaças que obriguem à proteção policial de um filho, como sucedeu com ele.

O que o levou a escrever um livro 
e a lançar um site sobre arbitragem?

Fez-me confusão o setor ter estado sempre sob suspeita. O projeto nasce da vontade de aproximar a arbitragem dos adeptos, explicando-lhes as regras com exemplos práticos e fazendo-os sentir o que é estar na pele de um árbitro. O livro tem uma linguagem acessível e o site vai permitir uma relação mais imediata com o adepto. Terá vídeos, diretos, esclarecimentos sobre o videoárbitro, análise aos casos da semana, um espaço para dúvidas e conteúdos partilhados com a SIC, SIC Notícias e o jornal A Bola. Também vou manter a página de Facebook e, talvez, criar um canal no YouTube. Quero fazer um trabalho multiplataformas.

Tudo isso sozinho?

Inicialmente, vou ter muito trabalho. Com o tempo, avaliarei a situação para dar a melhor resposta. Estarei também preparado para injúrias, como sempre estive, a cada penálti que for assinalado nos clássicos. Mas é preciso ter em conta que muitas regras são de uma dificuldade enorme de aplicar e, se as pessoas perceberem isso, se calhar compreendem melhor e suspeitam menos.

Acredita mesmo nisso?

É preciso começar por algum lado. Não sou um mensageiro da paz com ideias demagogas, tenho os pés no chão. O adulto de hoje já tem o chip formatado para a desconfiança e dificilmente mudará de opinião. Mas o jovem que amanhã será jogador, adepto, dirigente, jornalista, há de ser alguém que pode começar a beber outros valores. Sei que não vou mudar o mundo, mas posso despertar algumas consciências. A própria estrutura da arbitragem deve perceber que a transparência tem de ser total. Ao fechar-se, gera suspeição.

Os árbitros deviam falar 
mais aos adeptos?

Quando se diz que os árbitros são corporativistas, é verdade. Porque estamos sempre à distância de um penálti para passar de bons camaradas a piores do mundo. Ao ficarmos sob fogo intenso, nos jornais, na TV, na rádio, no talho, no supermercado ou no centro comercial, a única solução do grupo é fechar-se. Só que estamos no séc. XXI e, com a internet e as redes sociais, temos de nos adaptar. Isso passa por explicar os processos de nomeações dos árbitros ou como é que lhes são atribuídas as notas, de modo a que se perceba que não há ali qualquer truque. É preciso abrir as portas da arbitragem, humanizar os árbitros. Porque são vistos como aliens que andam no futebol para fazer mal ao jogo.

Até que ponto os dirigentes alimentam essa ideia?

Por vezes culpam os árbitros dos resultados, mas isso acontece em todo o mundo. O que temos de fazer é torná-los aliados, de lhes incutir maior fair play. Não é uma ideia romântica. É perfeitamente viável porque este tipo de cultura já existe noutros países desenvolvidos, não estou a inventar nada. A crítica é livre, mas que se deixem de devaneios que só estragam o produto futebol.

Os devaneios de que fala parecem já ter contagiado o futebol nos escalões mais jovens.

Regra geral, a cultura desportiva dos miúdos já é resultadista. É ganhar, ganhar, ganhar. Já não há um rival em campo, há um inimigo. Se formos ver um torneio, mesmo particular, há agressões e ameaças a treinadores e pancadaria entre pais das duas equipas. Isto está completamente desvirtuado em relação ao que deve ser o crescimento competitivo de um jovem, que deve privilegiar valores como o respeito pelo adversário, o saber aceitar a derrota, mesmo com erro do árbitro, assim como o saber ganhar, que é fundamental.

Como explica as agressões 
a árbitros protagonizadas 
por pais de jovens jogadores?

Os pais estão formatados com a tal cultura de vitória a todo o custo e incutem-na aos filhos. Querem ter o seu Cristiano Ronaldo para orgulho pessoal e sustento da família. Além disso, quase todos pagam uma mensalidade e, de alguma forma, sentem-se mais legitimados para intervirem. Os pais colocam uma pressão tremenda nos miúdos, quando nestas idades se deve fomentar apenas o prazer de jogar. A culpa disto é nossa e todos os intervenientes deviam assumir um compromisso de honra para mudar este estado de coisas.

Imagina Pinto da Costa, Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira sentados à mesa, a assumirem um acordo sério nesse sentido?

Não, imagino o FC Porto, o Sporting e o Benfica. E todos os outros clubes. Além de jogadores, treinadores, árbitros. É preciso fazer como os ingleses e deixar de olhar para o umbigo. As pessoas têm de ter a capacidade de deixar de lado as suas quezílias. Ninguém pede que sorriam umas para as outras. Mas como é possível darmos tantos tiros nos pés por causa de um penálti?

Vem aí o videoárbitro. Os erros 
vão diminuir drasticamente?

O que vai diminuir drasticamente são os erros grosseiros em quatro situações: golos, penáltis, vermelhos diretos e troca de identidade na punição disciplinar de um jogador.

Das que ficam de fora do raio 
de análise, quais poderão vir 
a gerar mais polémica?

Quando houver uma reposição de bola em jogo que resulte em golo, por exemplo um pontapé de canto ou um livre mal assinalados. Nesses casos não se pode voltar atrás, o que vai deixar as pessoas chocadas. O mesmo vai acontecer nos lances mal ajuizados de segundo cartão amarelo e respetiva expulsão. A menos que seja um lance de penálti, o videoárbitro não poderá intervir.

Vamos ter mais lenha para os árbitros se queimarem, portanto.

Prefiro ver o lado positivo. Não vamos ter golos marcados com a mão ou em claro fora de jogo nem vamos ter agressões nas costas dos árbitros. Espero que se releve isto e não as outras falhas mais pequenas que, para já, vão continuar a existir.

Os treinadores conhecem 
bem as regras?

Há muitos treinadores e jogadores profissionais que não as conhecem. O mesmo acontece com jornalistas e comentadores. Não se atualizam. 
O meu projeto visa preencher esse vazio.

A data 15 de dezembro de 2001 
diz-lhe alguma coisa?

Diz-me Benfica-Sporting e diz-me Jardel. Foi um dos muitos penáltis mal assinalados da minha carreira, mas pelo impacto mediático que teve está a ser tema desta conversa 16 anos depois. Isto é um pouco aquilo que nós somos. Focamos muito no erro. Devo ter acertado 10 milhões de penáltis, mas falam-me sempre do mesmo. É injusto, porque errei em muitos outros. Foi um jogo que correu mal, não estava preparado. Tinha 28 anos, era o meu primeiro clássico e o último antes da demolição do antigo Estádio da Luz, com 80 mil pessoas a assistir. Foi jogo a mais para o meu calibre de árbitro na altura. É preciso ter muitos quilómetros de alta competição nas pernas para saber gerir tantas emoções, conflitos e mediatismo. Eu não os tinha. 
E sucumbi.

Como era o trato com as pessoas na rua quando um jogo corria mal?

Afastava-me dos centros comerciais, dos cinemas, das discotecas. Quando as emoções estão ao rubro é muito mais fácil surgir o insulto, a ameaça ou a agressão. Claro que apanhamos sempre aquele adepto mais arruaceiro, que ao longe faz barulho e de perto disfarça. Mas isso faz parte.

Qual a situação mais complicada que viveu?

Procuravam-me, quando envolvia Benfica, Sporting ou FC Porto. Pedradas no carro, furos nos pneus, toques na campainha às quatro da manhã. E também recebi muitas ameaças concretas, por telefone e email. Uma delas obrigou a proteção escolar à minha filha.

Como lidou com isso?

Nunca me conformei. Compreendo que o balão encha durante o jogo, mas três dias depois, quando estou em família, não compreendo.

Quantos anos tinha a sua filha?

Tinha três, estava na creche. Nas ameaças constava o nome dela, a morada e os horários. Diziam coisas como “vou chegar a ti, vou dar cabo da tua filha”. A Polícia entendeu que se justificava a proteção policial e foi assim durante uma semana. Nunca descobriram o autor das ameaças.

Alguma vez foi agredido em campo?

Tinha 19 anos e deram-me um soco na cara. Era um jogo para decidir a subida à 3ª divisão nacional. Assinalei um canto e, de repente, um jogador que não concordou com a decisão vem por trás e dá-me um soco de mão fechada. Expulsei-o, terminei o jogo aos 78 minutos e aguardei pela polícia no balneário. Foi muito triste porque era um miúdo e pensei em desistir.

O que aconteceu ao agressor? 
Pediu desculpa?

Ele tinha mais de 30 anos e foi suspenso por quatro. Chegámos a encontrar-nos durante o inquérito disciplinar e pediu-me desculpa. Acabei por desistir do processo em tribunal.

Não esconde que simpatiza com o Benfica. Durante a carreira é perigoso um árbitro assumir o seu clube?

Perigoso é um árbitro ser mentiroso e eu não sou. Todos os árbitros deviam ter a coragem de dizer publicamente qual é o seu clube. Falava-se disto durante um ano e depois já não era assunto. Há uma clubite cega no futebol que não se consegue combater. Mas é possível ir habituando as pessoas a um discurso diferente. Peguei nesta bandeira e vamos ver como corre.

Sente que há corrupção 
na arbitragem?

Se há provas de desonestidade, e eu acredito que não, mas não meto as minhas mãos no fogo, que se investigue tudo. Os árbitros são os únicos agentes do desporto obrigados a entregar uma declaração anual de rendimentos com todos os seus depósitos a prazo e à ordem, além do património. É de lei. E o que vemos agora são apostas ilegais, viciação de resultados e jogadores e dirigentes a irem para o banco dos réus. Fala-se tanto em comissões de transferências, em falhas perante o Fisco e a Segurança Social, e só os árbitros é que são malandros? Que a lei se aplique a todos e não apenas aos árbitros. E depois não querem que sejamos corporativistas. Começa pelo Estado a desconfiança pública sobre a arbitragem.

Algum vez foi aliciado?

Nunca tive uma única abordagem direta ou indireta, em toda a minha carreira, que entendesse ser desviante. No futebol, é necessário manter alguma distância institucional porque não basta ser, também é preciso parecer. E eu tive sempre esse cuidado.

Deixou a atividade de bancário para se tornar árbitro profissional. Compensou?

Em 2004, fiquei no banco em 
part-time. Depois do Europeu de 2012, deixei de vez. Mas sabia que o mundo da arbitragem era efémero. Na altura já tinha um negócio de alojamento local, na Baixa de Lisboa, que mantenho. Portanto, compensou no sentido em que pude dedicar-me mais ao que realmente gostava de fazer. Só para ter uma ideia, em 2001, quando o Boavista foi campeão, eu arbitrei o jogo do título, frente ao Aves. Nesse dia, saí de uma reunião em Lisboa, às cinco da tarde, e com o trânsito cheguei ao Bessa uns 40 minutos antes do apito inicial, com o diabo a quatro. Isto não pode acontecer em alta competição. Ainda hoje os árbitros continuam a ser os mais amadores no futebol.

Entrevista publicada na VISÃO 1274 de 3 de agosto

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