www.jornaldenegocios.ptLuís Marques Mendes - 13 ago 21:30

Notas da semana de Marques Mendes

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Luís Marques Mendes na SIC Notícias. O Negócios revela os excertos, nos quais o comentador, esta semana, fala de estimativas para o crescimento da economia, de Pedrógão, das eleições autárquicas e do caso Isaltino Morais, entre outros temas.

ECONOMIA – O LADO BOM E O LADO MAU

  1.       Economia – O lado bom: o maior crescimento deste século.

a)      Amanhã, o INE vai divulgar o valor do crescimento do PIB no segundo trimestre – ao que apurei será superior aos 2,8% do primeiro trimestre e até ligeiramente acima dos 3%.

b)      Esta semana, foram divulgados dois dados importantes:

  •          Um novo aumento das exportações – 12,5% no semestre;
  •          Uma nova descida da taxa de desemprego – 8,8% no semestre.

c)      Tudo isto é muito positivo.

  •          Estamos a crescer muito acima da previsão do Governo. É bom.
  •          Estamos a crescer de forma correcta – sobretudo, a partir das exportações e do investimento. É bom.
  •          Estamos a crescer de forma saudável – diminuindo o desemprego, de forma mais rápida do que se previa. É bom.
  •          Vamos ter o maior crescimento desde o início do século.
  1.       Economia – O lado mau: a repetição dos erros do passado.

a)      O crédito ao consumo e ao imobiliário está demasiado elevado. É mau. Se as pessoas estão muito endividadas, correm o risco de ficar ainda mais endividadas no futuro.

b)      O crédito às empresas está muito baixo. É mau. Não se incentiva o investimento produtivo. Ficamos pelo  imobiliário, o que não é saudável.

c)      A poupança está em níveis muito baixos. Devia estar a ser estimulada.

d)      E o investimento público continua a cair. O que é muito perigoso. Dá cabo dos serviços públicos. Veja-se o exemplo dado esta semana pelo Comandante da PSP do Porto: como o Estado não investe, o número de efectivos da PSP é o mesmo de há 70 anos.

IMI – O DESCONFORTO DOS CONTRIBUINTES

  1.       Desde o fim do ano passado que os contribuintes sabiam que haveria uma taxa adicional ao IMI para pagar sobre património que ultrapassasse os 600 mil euros ou 1,2 milhões euros se se tratar de um casal ( imposto Mortágua)
  1.       O que muitos contribuintes não sabiam é que para os casais beneficiarem de tributação conjunta (ou seja, de isenção até 1,2 milhões) tinham de apresentar uma declaração às Finanças. E, agora, são surpreendidos com a notícia de que podem ter de pagar mais do que seria exigível.
  1.       Se é certo que o desconhecimento da lei não é argumento, pergunta-se:

a)      Sendo um imposto novo, não era dever das Finanças terem feito uma campanha de informação e esclarecimento dos contribuintes?

b)      Será que as Finanças pensam que os contribuintes são todos advogados, fiscalistas ou técnicos de contas que andam com o Diário da República debaixo do braço?

c)      E com tantos cruzamentos de dados que as Finanças fazem, não podiam, eles próprios, verificar quantos são os titulares dos imoveis, evitando uma declaração dos contribuintes?

  1.       Aqui está um bom exemplo de duas coisas: arrogância do Estado e falta de respeito pelos contribuintes.

OS RELATÓRIOS DE PEDRÓGÃO

Foram divulgados esta semana os primeiros relatórios sobre Pedrógão. De tudo conclui-se que este caso está cheio de originalidades.

  1.       Primeira originalidade: temos investigações paralelas e em duplicado.
  •          A Comissão de Inquérito Independente ainda nem sequer está a meio do seu trabalho e já o Governo tira conclusões parcelares.
  •          E se, no final, as conclusões de um lado e do outro forem diferentes? O que é que vale? Pode ser a confusão total. Para já, há uma conclusão a tirar: tudo serve para condicionar a Comissão de investigação independente.
  1.       Segunda originalidade: há responsabilidades mas não há responsáveis. Há culpas mas não há culpados.
  •          Segundo o que veio a público esta semana, falhou tudo ou quase tudo: falhou a Proteção Civil; falhou o SIRESP; falhou a PT; falhou a coordenação com as forças de segurança.
  •          E, todavia, não há um único responsável nem um único culpado. Ninguém é demitido, ninguém é afastado, ninguém é penalizado. Parece de gargalhada.
  1.       Terceira originalidade: tudo o que falhou está no MAI.
  •          Tudo o que falhou é no âmbito dos serviços e dos organismos que estão, todos eles, sob a tutela da Ministra da Administração Interna.
  •          Sendo assim, pergunta-se: e a Ministra? Não tem responsabilidade nenhuma? Não é nada com ela? A culpa morre politicamente solteia? Isto só não é uma comédia porque tudo não deixou de ser uma enorme tragédia. Depois queixem-se que os cidadãos não acreditam no Estado, na política e nos políticos.

ILAÇÕES DAS LISTAS AUTÁRQUICAS

  1.       Apresentadas esta semana as listas de candidatos às eleições autárquicas, há, desde já, algumas conclusões a tirar:

a)      Primeira conclusão: há mais listas de independentes do que nunca.

  •          Aspecto positivo: há mais competição com os partidos. Bom para a democracia. Nas autárquicas, as pessoas contam mais que os partidos.
  •          Aspecto negativo: a esmagadora maioria dos independentes são "falsos independentes". São dissidentes dos partidos. Com excepção de Rui Moreira, no Porto, ou José Manuel Silva, em Coimbra, e alguns outros, a grande maioria não são verdadeiros independentes.

b)     Segunda conclusão: estas autárquicas são um grande sinal de fragilidade dos partidos.

  •          Nunca se viram tantas divisões nos partidos como desta vez. Há casos e casos  em que os partidos se dividem por vários candidatos:  os candidatos oficiais e os oficiosos. O que mostra que os partidos estão numa crise séria. Isto aplica-se a todos: PS, PSD, PCP e CDS.

c)      Terceira conclusão: o "regresso" de muitos Presidentes de Câmara que saíram há 4 anos por força da limitação de mandatos.

  •          Este é outro facto novo: muitos Presidentes de Câmaras que há 4 anos tiveram de sair, por força da lei, "regressam" agora como candidatos. Uns pelos seus partidos do passado. Outros como independentes. Outros até por partidos diferentes.
  •          Como reagirâo os eleitores a estes "regressos". Acham bem? Acham mal? É uma grande curiosidade para a noite eleitoral.
  1.       Previsões de resultados

a)      O PS deverá continuar a ter a maioria das Câmaras mas deverá ter menos do que tinha (é o partido com mais divisões).

b)      O PSD pode subir em número de Câmaras mas vai ter mais dificuldade em número de votos e nos grandes centros urbanos.

c)      A CDU e o CDS vão manter, no essencial, as suas posições.

d)      O BE, esse, não conta em termos autárquicos.

  1.       Consequências na geringonça

a)      Só numa eventualidade, a estabilidade da geringonça podia ser afectada – se o PCP baixasse significativamente o seu resultado eleitoral. Se perdesse várias Câmaras. Isso equivaleria a dizer que o PCP era penalizado por dar apoio ao Governo.

b)      Só que esse cenário não é provável. A CDU não deverá baixar o seu resultado. Até por uma razão que tem passado bastante despercebida: nas autarquias onde a CDU está mais frágil, o PS "deu uma ajudinha", apresentando candidatos mais fracos, de segundo nível, para não fazer perigar os "feudos" da CDU.

O NOVO CAMPEONATO NACIONAL DE FUTEBOL

Dois apontamentos sobre o novo campeonato, iniciado esta semana:

  1.       Primeiro: o F. C. Porto e o Sporting estão sob uma enorme pressão – precisam de ganhar.
  •          O FCP porque na era Pinto da Costa não está habituado a perder 5 campeonatos seguidos. Uma nova derrota será muito má para Pinto da Costa, neste final de carreira desportiva.
  •          No Sporting a pressão é, sobretudo, sobre Jorge Jesus. Com tanta expectativa à partida, se perder pelo 3º ano consecutivo, isso pode ser-lhe fatal. Dificilmente aguentará em Alvalade.
  •          O Benfica, esse, parte mais distendido. Se conseguir o Penta faz história. Se não conseguir não é dramático.
  1.       Segundo: a novidade do vídeo-árbitro. Há um lado positivo e um lado perigoso.

a)      Lado positivo – maior contributo para a verdade desportiva.

b)      Lado perigoso – o excesso de expectativas. Criou-se a ideia que o vídeo-árbitro vai acabar com todas as divergências ou polémicas. Que a partir de agora não haverá falhas nas arbitragens.

  •          Ora, isto não é assim. O vídeo-árbitro vai ajudar a diminuir os erros dos árbitros, mas não vai acabar com eles.
  •          Haverá sempre lances que são subjectivos. Jogadas que dependem da interpretação do árbitro. E não há vídeo-árbitro que resolva.
  •          Seria bom que os responsáveis fizessem pedagogia e fossem informando devidamente a opinião pública. Doutra forma, uma inovação positiva corre o risco de se transformar em alvo de uma nova polémica.
  1.       Em conclusão: vamos ter não apenas uma Liga muito competitiva, como também um ambiente de "cortar á faca".

O CASO ISALTINO MORAIS

  1.       Eu sou especialmente insuspeito para dizer o que penso sobre este assunto: é que fui justamente eu que há 12 anos afastei Isaltino Morais das listas do PSD.
  1.       Assim, indo por partes:

a)      Acho que Isaltino Morais tem razão quando diz que este juiz nunca devia ter decidido este processo. Devia ter pedido escusa. Alguém que tem as ligações que tem ao Presidente da Câmara de Oeiras não devia intervir neste caso. Tem sobre si uma suspeição. Um conflito de interesses. Aplica-se aqui o princípio da mulher de César: não basta ser séria, também tem de parecer. Isto é de mediano bom senso.

b)      Este juiz, sem querer, fez um enorme favor político a Isaltino Morais: transformou-o numa vítima. Ora, como em Portugal, a vitimização dá sempre resultado, de duas uma: se Isaltino ganhar a questão judicial, vai ser coroado nas urnas; se não for a eleições, fica perante muitos a sensação de que foi afastado por um golpe de secretaria.

  •          Um técnico de marketing da campanha de Isaltino Morais não faria por ele melhor do que fez este juiz.
  1.       Finalmente, a decisão do Tribunal Constitucional.

a)      A minha convicção é que este caso vai chegar ao Tribunal Constitucional;

b)      E aí as coisas podem piorar para Isaltino Morais – é que o Tribunal Constitucional, há 4 anos, rejeitou uma lista (em Gondomar) com os mesmos argumentos dos agora invocados pelo juiz de Oeiras. É muito difícil decidir hoje de forma contrária à decisão de há 4 anos.

c)      Conclusão: Isaltino pode ganhar politicamente, mas corre o risco de perder juridicamente.

  1.       Nota final: goste-se ou não se goste dos candidatos, estas questões deviam ser resolvidas nas urnas e não nos tribunais.
  •          Mas aí a culpa não é dos juízes. A eles só lhes compete aplicar as leis.  Culpa é dos deputados e dos partidos, que podiam ter simplificado a lei (como pediu Rui Moreira) e não o fizeram, com o propósito de dificultarem a vida das candidaturas independentes.

COREIA DO NORTE

  1.       Porquê esta brutal escalada de violência verbal?

a)      Primeiro: porque de um lado e do outro estão dois loucos. Um louco, sanguinário, na Coreia do Norte. Um louco, que ninguém respeita, nos EUA.

b)      Segundo: além de loucos, ambos precisam de arranjar inimigos externos : o líder norte-coreano precisa de um inimigo externo para unir internamente a população; Trump precisa de um inimigo externo para desviar as atenções das investigações de que está a ser alvo nos EUA.

  1.       Há risco de conflito militar? Claro que sim. A loucura é sinal de perigo.

a)      Não estamos no tempo da Guerra Fria. Aí havia forte tensão entre os EUA e a União Soviética (caso dos mísseis de Cuba) mas não havia, de um lado e do outro, líderes loucos ou irracionais. Ambos sabiam o muito que tinham a perder em caso de conflito.

b)      Agora, há o risco de o jogo psicológico passar a vias de facto. Tanto se sobe a escalada verbal que um dia a situação pode descontrolar-se. Há demasiada emoção e pouca racionalidade de ambos os lados.

  1.       O papel importante da China

a)      A China está em crescendo de influência na política internacional. Ganhou peso no dossiê das alterações climáticas, "substituindo" os EUA na liderança deste processo. E tem um papel decisivo no conflito EUA/Coreia do Norte.

b)      Por isso, a sua diplomacia está muito activa e já fez dois avisos sérios:

  •          À Coreia, dizendo que não a apoiará se for ela própria a iniciar um conflito;
  •          Aos EUA, avisando que intervirá ao lado da Coreia se os americanos iniciarem um conflito militar.
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