www.dn.ptRicardo Simões Ferreira - 13 ago 01:00

A Espreguiçar Na Rede - Arrependam-se! O fim da Internet está próximo

A Espreguiçar Na Rede - Arrependam-se! O fim da Internet está próximo

É um tema recorrente nesta coluna, pelo que estarei a correr o risco de parecer um daqueles maluquinhos que ostentam cartazes com frases parecidas com a do título, mas porque os riscos são reais e é a civilização que está no prato da balança, regresso ao assunto. E ainda que a crescente ameaça de conflito (nuclear?) na Ásia pareça ser um perigo mais imediato, a questão da cibersegurança precisa ser percebida e debatida urgentemente por todos nós.

O mundo de hoje não existe sem Internet. Dos sistemas financeiros à segurança, passando pelas comunicações privadas e de Estado, toda a sociedade ocidental tem as suas fundações nesta rede. Isto tem vantagens evidentes, até mesmo a nível de segurança: é praticamente impossível "desligar" a Net.

No entanto, é possível destruí-la.

Esse holocausto pode acontecer de várias formas, mas centremo-nos em duas: ação intencional de um ou mais Estados; infeção (propositada ou acidental) da "fauna" do ciberespaço a um nível tal que torne a vida "normal" na Internet impossível. (Os dois tópicos não são mutuamente exclusivos, um pode ser consequência do outro ou acontecer uma mistura dos dois - o que é até mais provável.)

No primeiro caso, têm sido muitos os exemplos recentes de ataques informáticos originados por Estados: da ingerência russa nas últimas eleições americanas aos recentes ataques com ransomware a serviços públicos na Europa de Leste, passando pela espionagem industrial que a China tem repetidamente realizado em empresas ocidentais ou pela estratégia do Pentágono de sabotar programas inimigos - no Irão e na Coreia do Norte, pelo menos - com ataques cibernéticos. É simples de ver como estamos permanentemente vulneráveis a um ataque deliberado a infraestruturas vitais.

Ao mesmo tempo, a criação de defesas para estes riscos é um caminho que facilmente pode levar ao fim da sociedade ocidental como a conhecemos. Em nome de "mais segurança" é f��cil os governos tentarem controlar a informação trocada na rede global - como fazem regimes autoritários como a China ou a Coreia do Norte - criando firewalls e outros controlos de acessos à web, limitadores da liberdade de expressão e consequentemente destruidores do que é a génese democrática, livre e igualitária da Internet.

(É de muito aconselhável leitura o novo livro The Darkening Web: The War for Cyberspace, do especialista em cibersegurança Alexander Klimburg. Leia na Vox uma entrevista ao autor)

Mas a destruição da Internet pode nem precisar do "patrocínio" de um Estado ou nação. O número crescente de malware que circula no ciberespaço está a fazer da Net uma selva cada vez mais perigosa. Os mais recentes ataques de ransomware, lê-se esta semana num relatório do laboratório de cibersegurança Kasperski, não tiveram como objetivo ganhar dinheiro mas sim, simplesmente, destruir.

Estes "vírus", simplifiquemos assim, atingem atualmente um nível de sofisticação que torna impossível detetá-los da forma tradicional. Por isso, a Microsoft está já a utilizar sistemas de inteligência artificial que tentam perceber se se está perante um software malicioso através do comportamento do programa, ao invés de simplesmente comparar o código em análise com uma base de dados de vírus. Este outono, na próxima grande atualização do Windows 10, o sistema estará à disposição de todos os utilizadores.
Outros fornecedores de software seguirão este caminho, até porque nenhum é invulnerável: há duas semanas o WikiLeaks revelou ferramentas que atacam especificamente Macs e sistemas Linux. Mas esta tecnologia ainda está a dar os primeiros passos.

Estamos condenados? Quero acreditar que não. Mas apenas com permanente vigilância nas nossas atividades diárias online, bem como sobre as ações dos governos relativamente à nossa liberdade de expressão, poderemos ter esperança de continuarmos a ser livres e civilizados daqui a 10, 15 anos.

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