expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 13 ago 23:00

A alcateia dos lobos solitários

A alcateia dos lobos solitários

O universo dos super-heróis saltou da banda desenhada para a televisão e ganhou uma nova vida no streaming. “Marvel — Os Defensores” é a nova aposta da Netflix e tem estreia marcada para sexta-feira

É demasiado tarde para heróis”, dizem a Luke Cage. Nova Iorque está diferente do que era e também ele está a tentar reconstruir a sua vida depois da prisão. Não é o único. Como ele, também Matt Murdock, Jessica Jones e Danny Rand andam à procura de um novo começo, esquecendo os tempos de super-herói, que fizeram parte daquilo que hoje parece pertencer a outra encarnação. Estão de volta ao que sempre foram, mesmo que sejam inegáveis as marcas daquilo por que passaram. Nova Iorque não é para fracos e eles sabem disso.

“Cada uma das séries terminou num momento decisivo”, lembra o produtor executivo Jeph Loeb a propósito dos primeiros projetos que uniram a Netflix à Marvel, revelando que é exatamente por aí que “Marvel — Os Defensores” começa. “Ao juntar estas quatro personagens no ecrã pela primeira vez, a equipa de produção queria que o primeiro encontro dos Defensores parecesse autêntico para estes heróis relutantes que, até certo ponto, são todos lobos solitários vigilantes.”

Em declarações disponibilizadas ao Expresso, o showrunner Marco Ramirez concorda com Loeb e expressa que estão em causa “quatro heróis que não queriam de todo fazer parcerias, mas que são forçados a fazê-las”. Em causa está a capacidade de conseguirem derrubar uma ameaça comum a toda a gigante malha urbana em que estão inseridos. As fundações de Nova Iorque parecem estar mais frágeis desde que os super-heróis se retiraram, pelo que cedo terão de regressar ao ativo, unindo forças.

É esta a lógica de “Marvel — Os Defensores”, a mais recente aposta da parceria que junta a Netflix ao gigante da banda desenhada, numa produção que une os universos de séries de sucesso como “Demolidor”, “Jessica Jones” ou “Luke Cage”, mas também da mais recente “Punho de Ferro”. Este trabalho de equipa, desenvolvido nuns estúdios descaracterizados nos arredores de Nova Iorque, foi produzido pela divisão Marvel Television em conjunto com a ABC Studios e esteve envolto em total segredo durante todo o processo criativo.

DAS PÁGINAS DE BD À TELEVISÃO

“A forma como percebi estas séries desde o início, tanto como escritor como enquanto telespectador, é que elas não são sobre como estes super-heróis fazem o que fazem, mas sim sobre por que o fazem”, considera Ramirez, que defende que essa característica acaba por tornar o produto final “psicologicamente e dramaticamente mais interessante de desembrulhar”. Depois, há que ter em linha de conta que esta é uma adaptação de uma banda desenhada original — antes do lançamento mundial da série, a nova versão de “Os Defensores” foi publicada em formato BD nos Estados Unidos — e que por isso há limites que devem ser estabelecidos.

“Quisemos prestar homenagem ao Brian Michael Bendis e aos muitos criadores que trabalharam arduamente na banda desenhada e criaram este mundo” de forma tão repleta “de camadas”, lembra Ramirez. Para o showrunner, parte da diversão passa mesmo “por ver onde é que o argumento [da série] se cruza com a banda desenhada, dando aos fãs”, como o próprio responsável máximo pela produção nova-iorquina, “momentos muito divertidos”. Marco Ramirez gosta mesmo do que faz.

Para os fãs mais aguerridos, que seguem as histórias destes super-heróis desde o início, a estreia de “Marvel — Os Defensores” é também um momento especial. Trata-se da primeira vez que Luke Cage e Danny Rand — cujas histórias se cruzaram no número 54 de “Power Man and Iron Fist”, lançado em dezembro de 1978 — estão juntos no ecrã, com a relação dos também conhecidos por “Heroes for Hire” a começar de forma tensa. De um lado temos um homem pobre à prova de bala e do outro está um milionário conhecido pelo seu Punho de Ferro, mas fica a garantia de que os dois vão acabar por entender-se (ou não estivesse em causa a cidade que tanto amam).

“A única coisa que tínhamos a certeza que estes quatro protegeriam [em conjunto] e pela qual dariam as suas vidas era Nova Iorque”, considera Loeb, mostrando que em “Marvel — Os Defensores” não haverá lugar para fronteiras. Se nas primeiras quatro séries se mostraram diferentes áreas da cidade de forma separada, “esta era uma oportunidade para mostrar como é que a cidade se parece como um todo, no mesmo programa”. E desta vez, também a Big Apple terá o seu próprio papel. “Sempre dissemos que Nova Iorque era o quinto Defensor e que a cidade seria ela própria uma personagem na série.” Para o responsável, a questão é tão simples (ou tão complexa) como isto: “No final do dia, isto trata-se de uma batalha para salvar Nova Iorque”.

Aos quatro protagonistas — Charlie Cox de “Demolidor”, Krysten Ritter de “Jessica Jones”, Mike Colter de “Luke Cage” e Finn Jones de “Punho de Ferro” — juntam-se outras peças-chave no elenco. Nesta primeira temporada, “Marvel — Os Defensores” conta com a participação de Sigourney Weaver, Elodie Yung, Jessica Henwick, Rosario Dawson, Rachael Taylor, Eka Darville, Elden Henson, Deborah Ann Woll, Scott Glenn, Carrie-Anne Moss e Simone Missick. Com produção executiva de Marco Ramirez (que acumula a função com a de showrunner), Douglas Petrie, Jeph Loeb e Jim Chory, a série de oito episódios tem estreia marcada para a próxima sexta-feira, data em que todos capítulos estarão disponíveis em streaming no Netflix. Os super-heróis estão de volta à ação, mas vão ter de agir como uma alcateia. Os tempos de lobos solitários da cidade que nunca dorme chegaram ao fim.

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