www.dn.ptJoão Taborda da Gama - 13 ago 01:00

Dentro Do Género - Ainda me lembro do que fizeste no Verão de 2001

Dentro Do Género - Ainda me lembro do que fizeste no Verão de 2001

Há uma ideia muito forte no documentário Fahrenheit 9/11 do realizador Michael Moore de 2004 que é a seguinte: George W. Bush é eleito numa eleição cujo resultado é contestado, tem uns primeiros oito meses difíceis, sem conseguir ter legislação aprovada, sem o controlo do Senado, e com os níveis de aprovação a caírem a pique. Perante este descalabro, o que é que o presidente Bush faz? Naquilo que é um momento de viragem do documentário - que tem por certo um nome técnico, muito provavelmente em francês -, o narrador responde: fez o que qualquer um de nós faria, meteu férias. E nesses primeiros meses esteve de férias mais de 40 por cento do tempo, sobretudo a jogar golfe e no seu rancho do Texas. Antes de ir de férias no verão de 2001 falou aos escuteiros americanos, sobre a necessidade de estar longe de Washington, na América real (esta parte, dos escuteiros, não está no documentário).

Como diria um dos meus filhos, é igualzinho cumó Trump. Uma eleição suspeita, com menos votos nas urnas do que no Colégio, e a suspeita de influência russa, um início de mandato em que nada acontece, e a única coisa que acontece é a subida da bolsa apesar de Trump, dificuldades nas nomeações (não há ainda embaixador em Lisboa, nem numa série de países), em que a taxa de aprovação popular é a menor de sempre. O que faz o presidente: está sempre a meter férias. O que neste caso tem a ironia de serem as férias de um presidente que criticou os outros presidentes por irem de férias (George W. Bush, por exemplo, sempre se demarcou das críticas republicanas aos dias tirados por Obama para jogar golfe).

A ideia do documentário de Michael Moore, embora não afirmada de modo absolutamente expresso, é a de que o 11 de Setembro, que se meteu logo depois das férias de verão do presidente, que tinham terminado a 3 de setembro, deu uma razão de ser a Bush e à sua presidência que até então nada mais tinha sido do que falhanço. E precisamente por isso, por não haver nada de que se pudesse orgulhar, é esta a teoria implícita do filme, que fez que a reação aos ataques fosse tão forte, também no plano interno e na restrição de direitos que a war on terror implicou. Há no filme um subtexto, um piscar de olhos às teorias da conspiração, de que pode ter havido conivência, pelo menos na forma omissiva como ninguém levou a sério ameaças credíveis e específicas sobre os ataques.

Tudo isto no que se está a passar com a Coreia do Norte lembra os antecedentes da Guerra do Iraque. Claro que pelo meio houve o ataque do 11 de Setembro, o poder crescente da Al--Qaeda como ameaça global (de que o ISIS é consequência direta), e na Coreia do Norte não há nada, há um ditador tresloucado e um país na miséria apenas protegido pelo medo que todos têm de chatear a China, que de vez em quando recebe o Dennis Rodman pelo cachê e porque tem a mania que é rebelde ou o José Luís Peixoto para fazer publirreportagens para vender no Natal.

Mas juntando a conjuntura interna de Trump, um forasteiro em Washington acossado por todos os lados onde o sistema chega, que perde uma base de apoio popular que agora começa a perceber que se Trump conseguisse levar avante a sua política de drogas, de saúde e de segurança interna morreriam mais depressa numa prisão, juntando tudo isto, numa análise estratégica dos incentivos e do seu alinhamento (que é uma espécie de chakras da análise de risco), a probabilidade maior é a de que aconteça qualquer coisa. Trump cada dia tem menos a perder, e tudo dependerá de como a Rússia se sentir com o beliscão à China.

A diferença entra as duas administrações é abissal, Bush tinha uma Casa Branca organizada, um instinto político afinado, um vice-presidente tipo supra-presidente, uma família com décadas de experiência e bom senso a quem podia telefonar. E uma equipa, uma equipa muito à direita, extremamente conservadora, com uma ideologia (Leo Strauss), gente demasiado civilizada quando comparada com a mistura de supremacistas brancos, tycoons empresariais. Talvez a equipa de Bush fosse mais atreita a guerras a sério e a de Trump se baste com guerras de gabinete, talvez Bush preferisse a guerra no deserto e Trump se baste com a guerra no Twitter. Mas que cheira a verão de 2001, cheira.

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