www.publico.ptFausto J. Pinto - 13 ago 08:04

Colesterol e estatinas: porquê ter medo da verdade?

Colesterol e estatinas: porquê ter medo da verdade?

Porquê estas campanhas de desinformação de pessoas, que nalguns casos estão ligadas à profissão médica? Porquê pôr em risco a vida das pessoas? Porquê levantar anátemas de suspeição contra a classe médica como um todo, como se fosse um bando de malfeitores a soldo da indústria farmacêutica?

As doenças cardiovasculares são no seu todo a principal causa de mortalidade e morbilidade em todo o mundo, incluindo Portugal. Só na Europa cerca de quatro milhões de pessoas morrem anualmente devido a causas cardiovasculares, o que representa cerca de metade das mortes totais por ano, apesar de todos os extraordinários avanços científicos que se verificaram nos últimos 50 anos.

Estes avanços permitiram, por exemplo, que a esperança média de vida em Portugal aumentasse de 68 anos para 81 anos entre 1970 e a actualidade. Cerca de 80% desta melhoria deveu-se aos avanços extraordinários no diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares. Um dos principais contribuintes para estes números espantosos foi, por um lado, a identificação dos chamados “factores de risco” para as doenças cardiovasculares, em que os níveis elevados de gorduras são claramente um deles e, consequentemente, a capacidade de controlar estes valores através de medicação específica, em que um grupo de medicamentos chamados “estatinas” tem um papel central.

Na realidade, é hoje em dia aceite pela comunidade médica que, a seguir aos antibióticos, as estatinas foram o grupo de fármacos que mais contribuíram para prolongar a esperança de vida da população em geral. Poderia dar vários argumentos e evidência científica sobre o que acabei de afirmar, mas poderei resumir no seguinte:

1. Vários estudos envolvendo largos milhares de doentes demonstraram que o uso destes fármacos reduz de forma drástica o risco do que nós chamamos de “eventos vasculares major” (morte por enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral ou necessidade de intervenção nas artérias coronárias). Ou seja, por cada redução de 40 mg/dl do valor de LDL (mau colesterol) em cada ano que o fármaco continua a ser tomado, reduz-se o risco em cerca de 25%. Para ser mais claro, o uso duma estatina administrada durante cinco anos em 10.000 pessoas com doença vascular conhecida, preveniria os tais eventos major em 1000 doentes. E este efeito acumula-se por cada ano em que a medicação é tomada;

2. Como qualquer medicamento, as estatinas têm efeitos ditos secundários: os mais graves são as chamadas “miopatias” (dores musculares com evidência de lesão muscular), que ocorrem em cerca de cinco doentes em cada 10.000 tratados, ao fim de cinco anos de tratamento contínuo, e cujo efeito é reversível em 4/5 casos quando o medicamento é interrompido.

Perante o conjunto vastíssimo de evidências científicas, as maiores sociedades cardiológicas mundiais, incluindo as americanas, canadianas, europeias (a que presidi), asiáticas, têm expressado claramente a sua posição, que se tem traduzido de forma muito objectiva em todas as guidelines internacionais, que são produzidas por estas mesmas entidades com recomendações precisas quanto à necessidade de tratar de forma eficaz este problema major de saúde pública.

A questão que então se põe a todos nós que diariamente temos a responsabilidade de tratar e aconselhar os nossos doentes é: porquê estas campanhas de desinformação organizadas por pessoas, que nalguns casos estão ligadas à profissão médica? Porquê pôr em risco a vida das pessoas? Porquê querer negar a evidência? Porquê levantar anátemas de suspeição contra a classe médica como um todo, como se fosse um bando de malfeitores a soldo da indústria farmacêutica? Confesso ter muita dificuldade em entender o que poderá estar subjacente a todo este ruído de fundo que tem sido produzido à volta duma área que devia ser vista como um dos grandes sucessos da medicina moderna e, infelizmente, é tratada duma forma superficial, totalmente desprovida de base científica.

Não podemos esquecer que o que nos tirou das trevas da Idade Média foi a aplicação do método científico, que ainda hoje é usado como base de qualquer investigação médica e que permitiu os resultados absolutamente extraordinários em ganhos de saúde que hoje usufruímos.

A comparação que me ocorre como mais aproximada à discussão distorcida que se tem observado recentemente seria se puséssemos em causa o efeito e impacto extraordinários que os antibióticos e as vacinas tiveram na nossa civilização. Ou, se quisermos entrar num campo diferente, seria como dar palco aos grupos que por esse mundo fora ainda hoje discutem se de facto alguma nave alguma vez aterrou na Lua.

O mais grave no caso pendente é que temos toda a evidência que a suspensão de estatinas nos doentes que têm indicação para as tomar aumenta de forma significativa o número de eventos que estas pessoas vão sofrer, ou seja, infelizmente, vai morrer muita gente por dar ouvidos a quem não deve.

Esta é a principal razão que me leva a escrever este texto, ou seja, contribuir para que se lance luz onde alguns parecem querer lançar confusão.

Que fique bem claro para todos: a comunidade médica mundial não tem dúvidas nenhumas sobre o que significou o avanço extraordinário no uso de estatinas no combate ao flagelo das doenças cardiovasculares, essas sim ainda o nosso inimigo principal.

Professor e director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; director do Serviço de Cardiologia e Departamento Coração e Vasos do Centro Hospitalar Lisboa Norte; presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia (2014-16)

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