www.dn.ptLeonídio Paulo Ferreira - 13 ago 01:00

Opinião - Guerra da Coreia começou por palavras a menos

Opinião - Guerra da Coreia começou por palavras a menos

A Guerra da Coreia começou no verão de 1950, com um ataque surpresa do Norte comunista a um Sul apoiado em teoria pelos Estados Unidos. E em teoria porquê? A 12 de janeiro, portanto escassos meses antes da invasão através do Paralelo 38, o secretário de Estado americano fez um discurso no clube de jornalistas de Washington. Dean Acheson, que evoluíra da necessidade de conciliação com Estaline para a de criador da NATO a fim de contrair o expansionismo soviético na Europa, descreveu com pormenor o perímetro defensivo americano na Ásia Oriental: ilhas Aleutas, a norte, depois Japão e também o arquipélago onde fica Okinawa, por fim, a sul, as Filipinas. Ainda hoje se especula se a omissão da sulista República da Coreia, proclamada em 1948, não foi o incentivo que faltava a Kim Il-sung para mandar avançar o seu exército. Antes, o líder norte-coreano tinha já obtido luz verde de Estaline e garantias de apoio da China Comunista se algo corresse pior do que previsto, ou seja, um passeio sobre um Sul sozinho.

A guerra durou três anos e depois de terríveis combates e um sofrimento horrível para o povo coreano, terminou empatada. A fronteira atual quase segue o Paralelo 38 definido por soviéticos e americanos em 1945, quando ainda eram aliados na Segunda Guerra Mundial, para receberem a rendição das tropas japonesas na península Coreana. É que a América, com a cobertura da ONU, veio mesmo em defesa da Coreia do Sul em 1950. O presidente Harry Truman percebera que se falhasse na proteção do Sul, outros parceiros da América poderiam também ser atacados pelo bloco comunista, incentivado pela passividade dos Estados Unidos.

Faltaram, pois, palavras e a guerra começou. Houve então ação e a guerra teve um rumo diferente do previsto. Duas lições a tirar: o que dizem ou deixam de dizer os governantes tem consequências, e as ações também contam na hora decisiva. Como aplicar estas duas lições à atual tensão entre a Coreia do Norte de Kim Jong-un, neto do fundador do regime e arquiteto da invasão de 1950, e o presidente americano Donald Trump, que em comum com Truman terá talvez só o viver na Casa Branca?

Olhe-se para Kim. Fala demais e corre por isso riscos acrescidos. É ilógico e contraproducente. A sua ação de dotar-se de armas nucleares até deixa o regime mais a salvo de um ataque do que em qualquer outro momento da sua história. Afrontar os Estados Unidos nunca é boa ideia, tal como não o é desprezar os conselhos da China, o grande aliado ainda hoje.

Já Trump, sem uma estratégia para lidar com uma Coreia do Norte nuclear, emergência que foi tolerada por George W. Bush e Barack Obama (primeiro teste nuclear foi em 2006), mostra aos 71 anos tanta inexperiência como o jovem Kim, de 34, e profere ameaças que a América mesmo que tenha poder para executar não ganhará nada em fazê-lo. A destruição da própria Coreia do Norte seria um desastre regional e de impacto muito negativo para a América.

Digamos que nisto de palavras e ações a China é quem tem estado melhor. Um jornal chinês relembrou aos norte-coreanos que se atacassem estavam por sua conta. E aos americanos disse que se fossem eles a atacar teriam de prestar contas. Palavras sábias, que traçam linhas vermelhas, que se seguiram a uma ação de grande peso: votar novas sanções ao Norte.

Ontem, Xi Jinping telefonou a Trump. Pediu-lhe uma retórica mais comedida. Resta saber em que tom pedirá o mesmo a Kim, o seu protegido que é tão rebelde como o avô conseguia ser em relação a Mao Tsé-tung.

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