www.jn.ptJoão Gonçalves* - 14 ago 00:09

Carta a Patrícia

Carta a Patrícia

Cara Patrícia,

Permita-me que a trate assim, com a informalidade que o "terreno" exige e que a Patrícia conhece certamente melhor que eu. Porque a Patrícia, apesar de a terem feito porta-voz da Autoridade Nacional de Protecção Civil no pior instante - aquele em que proibiram os comandantes dos corpos de bombeiros de falar directamente com a Comunicação Social -, ostenta uma biografia bem mais respeitável do que os que mandam em si. É licenciada em Relações Internacionais, oficial de Marinha, trabalhou nos "herdeiros" dos serviços de informações militares (andei pela antiga DINFO quando a Patrícia saía da adolescência e vi como trabalhavam então), ficou bem posicionada num concurso para entrar num "regulador" (a ambição de qualquer pato-bravo com canudo) e preferiu a "acção" da Protecção Civil. Esteve em Setúbal como adjunta do comando operacional e não lhe faltaram elogios. O actual comandante nacional, um dos muitos que o PS enfiou na sua Autoridade, puxou-a para porta-voz a partir de Carnaxide, após a tragédia de Junho em Pedrógão Grande, já que das poucas vezes em que apareceu para esclarecimentos não esclareceu nada. Pelo contrário, a Patrícia, com os seus briefings tecnicamente enxutos, de manhã e ao fim da tarde, segue rigorosamente o velho preceito ensinado pelo doutor Salazar: decidida até aonde ir, nunca vai mais além. O coronel Leitão, velho amigo do senhor primeiro-ministro, que preside à Autoridade e que se formou em recato e silêncio, com certeza está orgulhoso da Patrícia. Deixe-me que lhe diga que não merece os chefes e as tutelas que tem. Dá a cara diariamente por eles e pela imensa falácia que, entre múltiplas "descoordenações" e falhas persistentes de comunicação (os malditos cabos têm de ser enterrados, bem como a PT que os alçou, descobriu agora o primeiro-ministro ex-contratante do SIRESP que nunca é responsável por nada a não ser fofices), tem sido o desempenho global da Autoridade em 2017. Fizeram-se, para já, quinze relatórios e a senhora ministra ainda quer mais papeletas. Uma maneira torpe de tentar extinguir o "fogo" político que a atingiu, sem remédio, e que ela faz de conta que não existe. A Patrícia vai continuar a honrar e a dignificar a sua farda, hoje da Protecção Civil, amanhã noutro sítio qualquer, enquanto destes seus improváveis superiores hierárquicos jamais rezará boa história. No seu lugar, ia de férias e não voltava. Vá por mim, Patrícia. Estes desbiografados, todos juntos, não a merecem. Cumprimentos gratos.

*JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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