www.publico.ptRodrigo Saraiva - 13 ago 07:10

Uma diferente atitude política, inclusive nas autarquias

Uma diferente atitude política, inclusive nas autarquias

Uma candidatura não deve ser um mero exercício de poder ou pelo poder.

Estamos em ano de autárquicas e por todo o país milhares de cidadãos participam civicamente com o desejo de fazerem algo pela sua comunidade. Através de partidos ou movimentos independentes. Uns mais independentes do que outros, é certo. Na sua freguesia ou no seu concelho. Embora também exista quem se disponibiliza em prol de uma comunidade que não a sua. Alguns com afinidades, outros nem isso.

O país agita-se. Muitos serão os projectos, mais serão as caras. E as atitudes? Serão novas ou as de sempre? O fazer algo pela comunidade será mesmo o objectivo? Ou a motivação principal?

O surgimento de movimentos independentes, ou até mesmo mais partidos, não pode ser considerado um perigo para a democracia. Deve ser uma oportunidade para melhor democracia. Mais partidos, mais movimentos, deverá ser sempre sinal de mais diversidade. E não entendo que a diversidade possa ser considerada um perigo. Mas que este “mais” traga também algo novo, que seja de facto para somar qualidade. Porque surgir algo apenas com uma nova roupagem, trazendo velhos hábitos, então não trará mais diversidade, não trará mais responsabilidade. Serão meras oportunidades perdidas.

Nos partidos, principalmente nos mais antigos e de maior dimensão, assiste-se aos que têm por regra apresentar-se a jogo em praticamente todos os concelhos e freguesias. Fará isso sentido? É obrigatório? E outros partidos tentam marcar presença no maior número possível de autarquias, uns com candidaturas próprias, outros dando o seu logótipo para enfeitar coligações. E é isto que se assiste de quatro em quatro anos.

Na Iniciativa Liberal decidimos há meses que não participaríamos nestas eleições autárquicas. Não por não as considerar relevantes, bem pelo contrário. São tão importantes quanto eleições nacionais. São “apenas” diferentes. São as eleições da proximidade. Curiosamente com níveis de abstenção superiores a eleições nacionais. Curioso.

Decidimos por um não envolvimento, fosse como associação cívica ou partido, pois, como se costuma dizer, “depressa e bem não há quem”.

Mas se a Iniciativa Liberal participasse nestas eleições, como seria? Saberemos daqui a quatro anos. Mas decidi partilhar já a visão que defenderei dentro da Iniciativa. E que não é uma visão meramente ideológica, é uma questão de atitude independentemente de como me posiciono no plano ideológico. A nossa atitude perante a vida está também ligada à nossa visão da sociedade, tem a sua parte ideológica, mas não é totalmente consequência disso.

E vamos partir do cenário que, após avaliação dos mandatos, decidimos apresentar candidatura à Câmara Municipal de Lisboa (apenas por ser um cenário que melhor conheço). Como seria nas freguesias? Terá um partido que, embora apresente candidatura à câmara municipal, apresentar candidaturas em todas as freguesias? A minha resposta é (parece que não) óbvia: não, não tem. Mesmo que tenha (principalmente tendo) cidadãos para tal.

Por que razão teria uma candidatura da Iniciativa Liberal à Câmara Municipal de Lisboa de apresentar uma candidatura à freguesia do Lumiar? Se o balanço do mandato do actual executivo, presidido pelo Pedro Delgado Alves, do Partido Socialista (PS), é considerado positivo, porquê apresentar uma candidatura oposta? (não obstante o autor considerar que um presidente de uma junta de freguesia não devesse exercer o mandato de deputado ou vice-versa).

Por que razão teria uma candidatura da Iniciativa Liberal à Câmara Municipal de Lisboa de apresentar uma candidatura à freguesia de Belém? Se o balanço do mandato do actual executivo, presidido pelo Fernando Ribeiro Rosa, do Partido Social Democrata (PSD), é considerado positivo, porquê apresentar uma candidatura oposta?

Não sendo freguês residente destas freguesias que refiro, sou freguês utilizador de ambas. E nas duas vejo bom trabalho. Vejo dedicação e comprovo que não são partidariamente fechadas.

Se nestes casos a avaliação feita for positiva, porquê avançar logo com uma candidatura? O passo seguinte seria falar com os presidentes recandidatos e apresentar sugestões e ideias para integrarem o seu respectivo programa para o próximo mandato. E estou certo que, num espírito de abertura e colaboração democrática, se construiriam pontes de entendimento trazendo positivos resultados para as respectivas freguesias e seus fregueses.

Este é um exemplo de uma nova atitude que urge trazer para a política nacional. A de ter sentido crítico conjugado com a capacidade de reconhecer que não somos detentores de toda a verdade e que há outros cidadãos que, embora tenham uma ideologia ou visão da sociedade diferentes, possam ter tanta ou mais capacidade para gerir a comunidade.

Uma nova atitude que, não obstante diferenças de opinião, saiba que uma sociedade só se desenvolve harmoniosamente com a conjugação de vontades. Com políticas, sem politiquice. Com convicções, mas sem clubite.

Obviamente que deve existir o exercício e prática de oposição, faz parte de uma salutar democracia. E é isso que deve ser a base de uma candidatura. Não deve ser é um mero exercício de poder ou pelo poder. Que infelizmente se tornou a prática de muitos. Pelo seu poder e não pelo poder ajudar a comunidade.

A democracia portuguesa já tem mais de 40 anos. Mas é ainda pouco madura. Existe ainda muita intolerância e incapacidade de lidar com a diferença.

E escreve isto alguém que ainda não decidiu totalmente os seus votos nestas autárquicas. Dos três boletins que irei receber pode bem acontecer que num vote CDU, em outro PSD e no último em branco. E caso votasse no concelho onde residia anteriormente era provável que num votasse no Livre, em outro num movimento independente e no terceiro em branco.

Os que não compreendem isto, não lhes peço desculpa, é normal diferentes formas de estar na vida. Não me obriguem é a estar contra todos os que não pensam exactamente igual a mim.

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