www.jn.ptAntónio José Gouveia* - 13 ago 00:02

Pólvora seca

Pólvora seca

A descoordenação entre as várias autoridades que a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, assumiu esta semana sobre o incêndio de Pedrógão Grande, onde morreram 64 pessoas, tornando-se na maior tragédia deste género no país, já dá pistas para o que vai acontecer.

Afogadas as lágrimas, enterradas as vítimas, há que procurar respostas. Lidos os relatórios das múltiplas entidades, chega-se à conclusão que há duas situações: a primeira é que nalguns se procura a desresponsabilização e noutros se atiram culpas a outros que não os próprios.

A Inspeção-Geral da Administração Interna apontou falhas ao sistema de comunicações SIRESP, a Proteção Civil não encontrou a descoordenação de que fala a ministra e refere que a falha está na prevenção, a GNR acusa a Proteção Civil e desresponsabiliza-se da sua atuação e o Instituto de Telecomunicações alerta que as falhas do SIRESP são todas imputadas à PT.

Perante este cenário, e ainda sem apurar todos as vertentes desta tragédia, a ministra anuncia umas multitas ao consórcio que gere o SIRESP (que provavelmente contestará em tribunal) e uns inquéritos disciplinares. Entretanto, morreram 64 pessoas, entre elas crianças.

É este o Estado que temos. Não por culpa deste ou outro Governo. Sim, por culpa de sermos tão negligentes e com pouco brio profissional naquilo que fazemos. Se fôssemos um pouco mais exigentes com quem comanda todas estas autoridades públicas, se realmente nos importássemos com a sua fiscalização, o resultado poderia ser outro. Ou não. Mas teríamos cumprido a nossa parte.

Apesar de tudo, a ministra, que viveu intensamente toda esta tragédia, parece estar decidida a que o assunto não caia no esquecimento. Isto se não for impedida pelas teias de um ser que se move por ele próprio como é o Estado.

Foi há 16 anos. No dia 4 de março de 2001 morreram 59 pessoas. Um ministro demitiu-se e seis técnicos foram levados a julgamento por responsabilidades na conservação da ponte, acusados pelo Ministério Público de negligência e violação de regras técnicas. Em outubro de 2006, foram todos absolvidos pelo Tribunal de Castelo de Paiva. Não houve culpados e nenhum detentor de cargo político foi acusado. Não foi um incêndio, foi a queda da ponte em Entre-os-Rios.

Nestes dois casos, a coincidência foi a morte de pessoas, porque a culpa, essa, não pode morrer novamente solteira.

*EDITOR-EXECUTIVO

1
1