www.sabado.ptFlash - 12 ago 01:00

Realidades virtuais

Realidades virtuais

Se, daqui a uns tempos, as chefias chegarem à conclusão que patrulhas a pé gastam as solas em demasia, não será de excluir que as novas ordens recomendem aos agentes que façam o serviço descalços, ou pelo menos de tamancos

CONHECI HÁ UNS ANOS um professor romeno que me contou duas ou três obscenidades sobre a ditadura do camarada Ceausescu. Dizia ele que o problema do regime não estava apenas na violência explícita. Estava na "corrupção da realidade" - uma forma de falsificar o senso comum, apresentando como normais situações absolutamente anormais.
Um exemplo: faltava comida nas prateleiras das lojas? Primeiro, estranhava-se; depois, entranhava-se. E a população começava a perceber os dias e as horas em que valia a pena sair de casa para comprar alguma coisa. O problema, note-se, não estava na existência de uma economia em colapso. O problema estava na ideia ridícula, e até abusiva, de que um cidadão podia comprar o que quisesse, quando quisesse, como nas decadentes sociedades capitalistas.
Portugal passa por um processo semelhante. Não somos uma ditadura, mas todos os dias a anormalidade é apresentada como uma nova normalidade.
Vamos esquecer Pedrógão Grande e Tancos, só para dar descanso à úlcera. Esta semana, o Comando Territorial do Porto da GNR comunicou às chefias do distrito que os operacionais devem poupar os carros e fazer patrulhas a pé (ou, vá lá, de bicicleta). .
Esta farsa vai para além da austeridade, agora apresentada com as cores optimistas do "rigor financeiro". É uma "corrupção da realidade", típica das ditaduras, que procura convencer os otários de que a segurança pública está igualmente bem servida por agentes de carro, de burro ou a passo. Pobres otários.
UM ENGENHEIRO DA GOOGLE foi despedido por escrever um memorando "sexista". A notícia espalhou-se pela imprensa e as brigadas - de esquerda ou direita - começaram logo a salivar com a palavra. Para a esquerda, um idiota. Para a direita, mais uma vítima do "pensamento politicamente correcto". Mas, aqui entre nós, o que disse o sr. James Damore?
Num gesto radical, resolvi ir ler o memorando. Primeira observação: o documento está bem escrito, relativamente bem pensado nas primeiras páginas, e pelo menos parte de uma dúvida razoável. Será que as políticas da empresa para promover a "paridade" entre homens e mulheres são úteis e inteligentes?
Damore acha que não por dois motivos. Para começar, a Google acredita que todas as disparidades de representação devem-se à opressão. Para acabar, a Google acredita que a melhor forma de corrigir essa opressão é através de novas discriminações.
Até aqui, nada a dizer: sempre fui contrário às famosas cotas femininas por estes dois motivos. As cotas só fariam sentido a) como reparação por injustiças objectivas (e objectivamente provadas) sobre as mulheres; e b) as cotas implementam - realmente - aquilo que condenam - hipoteticamente: um tratamento preferencial para um dos sexos.
Acontece que Damore não fica por aqui. E, de forma a explicar as disparidades, mergulha em meditações biológicas que arruínam a empreitada. Para ele, as mulheres (todas?) interessam-se mais por "pessoas" e não por "coisas"; as mulheres (todas?) são dadas ao "neuroticismo" (tradução: lidam mal com o stress); e, ao contrário dos homens, as mulheres (todas?) não têm a ambição pelo "estatuto" que faz dos homens líderes naturais. A sub-representação nas empresas tecnológicas é o resultado natural destas disposições naturais.
No fundo, Damore comete o mesmo erro que imputa à Google: esquecer o indivíduo pela generalização tribal. Se James Damore tivesse saído mais vezes da sua cave, trocando o computador pelo "mundo real", ele talvez soubesse que há mulheres e mulheres.
A minha experiência pessoal, aliás, desmente várias das suas asserções. Conheci mulheres que eram autênticos bichos-de-mato. Conheci mulheres bastante mais temerárias do que muitos machos. E, em matéria de "estatuto", só um nerd completo poderia afirmar que todas as donzelas desprezam "a poeira da glória".
Agora que está desempregado, o sr. Damore podia perder algum tempo a conhecer a espécie em pleno século XXI. Mesmo que a experiência lhe provoque danos psicológicos momentâneos.
P.S. - Esta coluna vai de férias e regressa a 7 de Setembro.

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