observador.ptobservador.pt - 12 ago 16:14

Índia. 60 crianças morreram sem oxigénio no hospital, ninguém assume a culpa

Índia. 60 crianças morreram sem oxigénio no hospital, ninguém assume a culpa

Pelo menos 60 crianças morreram num hospital na Índia. Relatos apontam para corte no abastecimento de oxigénio, por dívidas de 92 mil euros. Governo nega responsalidade e abre inquérito.

A morte de pelo menos 60 crianças ao longo de cinco dias num hospital no norte da Índia está a chocar o país e levou o Governo, a administração hospitalar e a empresa que fornece oxigénio líquido a entrarem num jogo de passa-culpas. Entre as vítimas mortais, a maioria eram bebés que estavam internados numa unidade de cuidados intensivos neonatais por encefalite.

Os primeiros relatos indicavam que as crianças tinham morrido no Baba Raghav Das Medical College, em Gorakhpur, no estado de Uttar Pradesh, depois de a empresa que vendia botijas de oxigénio ter deixado de fornecer aquele hospital. A empresa em questão defendeu-se, referindo que o hospital tinha excedido sete vezes o limite da dívida acordada em contrato. E garante que avisou o hospital que tinha chegado a uma situação limite. O governo regional, apesar de os relatos apontarem nesse sentido, nega que as mortes se devam a falta de oxigénio e que a causa dos óbitos foram as infeções que estavam em tratamento e que foram causadas por falta de higiene pessoal.

“A culpa não é nossa”, reagiu Deepankar Sharma, o diretor da Pushpa Sales, em comunicado.

Segundo o nosso contrato, o limite de crédito não pode exceder 1 milhão de rupias [13 200 euros], mas apesar disso nós continuámos a fornecer oxigénio até ter chegado perto dos sete milhões de rupias [92 400 euros]. Também comprámos oxigénio a outra empresa, que nos negou o fornecimento sem um pagamento adiantado. Numa situação destas, por quanto tempo é que podíamos estar abastecidos?”, disse Deepankar Sharma, o diretor da Pushpa Sales.

Segundo o Hindustan Times, a Pushpa Sales enviou uma carta ao Baba Raghav Das Medical College a 8 de agosto, onde fazia um ultimato. “INOX, a empresa que nos fornece oxigénio, disse que não era possível continuar a fornecer oxigénio no futuro, caso falhemos os pagamentos”, lia-se na carta enviada pela Pushpa Sales àquele hospital.

Governo regional diz que não foi avisado e responsabiliza falta de higiene

Este sábado, o ministro regional para a Saúde, Ashutosh Tandon, anunciou que tinha suspendido o diretor do hospital, enquanto a tragédia é investigada. “Está a ser feito um inquérito aos níveis mais altos. Até lá, suspendemos o diretor do hospital universitário de forma imediata”, disse aquele ministro. Mais tarde, o diretor hospital disse que já se tinha demitido “antes” de ser suspenso.

Além disso, Ashutosh Tandon negou ter sido avisado da escassez do stock de oxigénio daquele hospital. “A falta de oxigénio não foi referida. O ministro não foi informado sobre esse assunto. Serão tomadas ações adequadas tendo em conta este assunto e será feita uma investigação”, referiu aquele governante.

Seja como for, o líder do Governo regional de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, descarta a hipótese de as mortes terem sido causadas por falta de oxigénio, apontando antes o dedo à falta de higiene entre a população. “Nós temos problemas com encefalites desde 1978. E, desde 1978, se crianças inocentes são vítimas da doença todos os anos, de alguma forma a falta de limpeza e defecação na rua são responsáveis por isto”, disse. “Existe uma falta de consciencialização entre as pessoas sobre a importância da higiene.”

Qual será o futuro de um país cujas crianças morrem destas doenças? É um desafio. É perturbador, mas temos de encontrar uma solução para este problema”, disse o governante.

Modi em (quase) silêncio, oposição fala em “grave negligência do Governo”

A equipa do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, publicou no Twitter que este estava a acompanhar o caso. “O primeiro-ministro está a monitorizar constantemente a situação em Gorakhpur. Ele está em contacto constante com as autoridades do Governo central e do Governo de Uttar Pradesh”, lê-se num post deste sábado. Para já, não há mais reações de Narendra Modi.

PM is constantly monitoring the situation in Gorakhpur. He is in constant touch with authorities from the Central & UP Governments.

— PMO India (@PMOIndia) August 12, 2017

O caso tem atraído várias críticas por parte da oposição ao Governo indiano e ao Governo regional de Uttar Pradesh, ambos a cargo do partido Bharatiya Janata, conhecido pela sigla BJP. “Pelo menos 60 crianças morreram num hospital do Governo em Gorakhpur nos últimos seis ou sete dias. Isto é um exemplo de grave negligência do Governo do BJP”, disse a líder do BSP, Mayawati Prabhu Das, em comunicado.

O líder do SP, que, apesar de ser um partido de âmbito nacional, é originário do estado de Uttar Prash, instou o Governo regional a rejeitar a tese de que as mortes foram causadas por infeções. “A empresa de oxigénio informou o diretor [do hospital] que iria parar o fornecimento se o pagamento não fosse feito e o Governo tem de entender que as mortes foram causadas devido à falta de oxigénio”, disse Akhilesh Yadav. Além disso, insinuou que o número de mortes pode ser superior àquele que está a ser divulgado. “Recebemos informações de que, à medida que as crianças morrem, as famílias são levadas para fora do hospital às escondidas”, acusou.

O líder do Partido do Congresso, Rahul Gandhi, reagiu à tragédia no Twitter. “Em profunda dor”, disse. E depois acusa o Governo de Narendra Modi de ser “responsável” pelas mortes e instou-o a “punir os negligentes que causaram esta tragédia”.

Deeply pained.My thoughts are with the families of the victims.BJP govt is responsible & should punish the negligent,who caused this tragedy https://t.co/rdwDJblJEj

— Office of RG (@OfficeOfRG) August 11, 2017

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