www.cmjornal.ptJosé Diogo Quintela - 12 ago 01:30

O SIRESP que gritou ‘lobo!’

O SIRESP que gritou ‘lobo!’

A sorte protege os audazes, mas também é muito meiguinha com os incompetentes.
Como o rapaz da fábula, a quem ninguém acudiu quando gritou ‘lobo!’ com razão, o Siresp, quando a emergência é a sério, é ignorado. Não porque as pessoas não acreditem nele, mas porque não o conseguem ouvir.

É que o Siresp, em situações de emergência, não funciona.

Agora, depois de apuradas as responsabilidades do Estado, vão ter de se pagar chorudas indemnizações às famílias das vítimas.

Mas, comparado com o dinheiro que se poupou em manutenções e arranjos que não se fizeram, o Estado ainda fica a ganhar. Vai conseguir poupar uma maquia considerável.

Durante anos e em várias ocasiões, o Siresp falhou. Mas só agora, depois de Pedrógão Grande e das 64 vítimas, é que o Governo vai pedir responsabilidades ao Siresp.

António Costa, como exímio negociador que é, vai aproveitar estas mortes para fazer negócio e esmifrar o Siresp até ao último cêntimo. (Atenção, este aproveitamento de mortos para fins financeiros, perfeitamente legítimo e até expectável, não tem nada que ver com o aproveitamento de mortos para fins políticos, nojento e cafajeste).

Apesar de não funcionar como deve ser, acho que não nos devemos precipitar e ver já livres do Siresp. Ainda tem serventia. Não dá para comunicações, mas dá para servir de alarme.

De hora a hora, liga-se o Siresp. Se estiver a funcionar, é sinal que está tudo bem. Se não funcionar, é porque está a acontecer uma calamidade.

Depois basta descobrir de que tipo de calamidade se trata e onde está a ocorrer. Fica assim como uma espécie de canário na mina de carvão (um canário de 600 milhões, alimentado a alpiste com trufa e instalado numa gaiola Hermès).

Quando não se ouve, é porque há azar.

Huawei do mais forte 
Ao ler sobre o caso das viagens pagas pela Huawei a vários políticos portugueses, confesso que tenho alguma saudade de José Sócrates.

A corrupção protagonizada pelo ex-PM é de qualidade superior. Há offshores, há férias de luxo, há apartamentos milionários em Paris, há mulheres por conta, enfim, há glamour. Na Huawei temos garotos a viajar por causa de informática.

Há uma foto de um almoço que diz bem da falta de prestígio de todo este caso, ao não mostrar uma única prostituta, nem garrafa de champanhe. Que geração de políticos é esta?

Das claques e dos peitos
A explicação para o que sucedeu na Supertaça é simples. Normalmente, naquela situação, o realizador, para mostrar animação, opta por filmar as claques.

Sucede que, como sabemos, o Benfica não tem claques. Daí o realizador ter-se visto forçado a procurar outra coisa para mostrar. Calhou ser um peito.

É pilhéria: isso das claques é uma peta de Luís Filipe Vieira. Já desmascarada, porque a mentira tem a perna curta. Se bem que no Benfica isso é indiferente.

Com as ajudas externas que recebe, no Benfica qualquer coxo se safa.

Orgulho, vergonha ou indignação? 
Ontem não se conseguia contactar com nenhum jornalista de lifestyle do país.

Tinham ido todos a casa mudar de cuecas, ao saber que um repórter de viagens da BBC, depois de descobrir que a tempura vem dos peixinhos da horta, que o vindaloo vem da vinha d’alho e que a feijoada brasileira vem do Minho, concluiu que a nossa cozinha pode ser a mais influente do planeta.

Afirmou-o no site de viagens da BBC! Uma referência internacional tão distinta descontrolou bexigas nas redações de tendências.

À hora a que escrevo ainda não se sabe qual das reacções está a pegar nas redes sociais: a de orgulho, por termos dado novos sabores ao mundo; a de vergonha, por mais um exemplo do nosso colonialismo subjugador; ou a de indignação, por sermos vítimas de apropriação cultural.
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