expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 18 jul 09:39

Famílias gastam menos 4 euros por dia do que antes da troika

Famílias gastam menos 4 euros por dia do que antes da troika

A despesa anual média das famílias em Portugal foi de €20 363 em 2015/2016, o que significa €55,8 por dia. Comparando com 2010/2011, a redução é de 0,1%. Contudo, em termos reais, ou seja, levando em conta a inflação, a queda é de 6,7%, o que se traduz em menos €1462 por ano, ou menos €4 por dia

A austeridade dos anos da troika continua a fazer-se sentir nos orçamentos das famílias portuguesas. Apesar da reversão de várias medidas — como os cortes salariais na Administração ou contribuição extraordinária de solidariedade sobre as pensões — as despesas das famílias em 2015/2016 ainda estavam abaixo do registado em 201/2011, antes do resgate a Portugal.

Segundo os dados definitivos do Inquérito às Despesas das Famílias em 2015/2016, divulgados pelo Instituto Nacional esta segunda-feira, a despesa total anual média dos agregados familiares em Portugal foi de €20 363. Um valor que equivale a €55,8 por dia.

Em relação a 2010/2011, data do último inquérito (que é realizado pelo INE a cada cinco anos), a redução é de 0,1%. Contudo, esta é a variação em termos nominais. Em termos reais, ou seja, levando em conta a inflação registada neste período, — e a evolução do poder de compra que lhe está associado — a queda é de 6,7%. São menos €1462 por ano gastos pelas famílias, o que significa, em média, menos €4 por dia.

Só Lisboa fica acima da média nacional

Fazendo uma análise regional, os resultados apurados pelo INE indicam que as famílias residentes na Área Metropolitana de Lisboa tinham o valor mais elevado para a despesa total anual média em 2015/2016, com €23 148 (o que corresponde a €63,4 por dia). Um nível “significativamente superior à média nacional”, frisa o INE. De facto, são mais €2785 por ano — ou €7,6 por dia — do que a média nacional. Mais ainda, Lisboa é a única região onde a despesa das famílias é superior à média nacional.

No extremo oposto ficam os Açores, com uma despesa total anual média por família de €16 856. Um valor que fica €3507 abaixo da média nacional. Por dia, são menos €9,6 do que a média dos agregados familiares residentes em Portugal.

As assimetrias não são apenas regionais. Por tipologia de família, também se verificam grandes diferenças no nível de despesa. Assim, a despesa total anual média dos agregados com crianças (dependentes) atingia €25 254 (€69,2 por dia, em média) em 2015/2016, sendo cerca de 44% superior à dos agregados sem crianças dependentes, onde ficava pelos €17 494 (€47,9 por dia).

Além disso, nas famílias sem crianças dependentes, “o fator idade condicionava a despesa média”, aponta o INE. Nos agregados familiares formados por um adulto não idoso, a viver só, a despesa média anual situava-se em €14 306, enquanto nas situações em que o adulto era idos, a despesa descia para €10 459. Ou seja, menos 26,9%.

Norte lidera desigualdade

O INE compara ainda a despesa média dos agregados por classes de rendimento total. Para isso, utiliza o conceito de adulto equivalente, que permite harmonizar os dados das diferentes famílias em termos da sua composição etária e dimensão, viabilizando a comparação dos resultados com base num padrão equivalente a um agregado familiar unipessoal.

Conclusões? As famílias do 1º quintil — que correspondem aos 20% de famílias com menores rendimentos — apresentavam em 2015/2016 um valor de despesa anual de €11 453 (€31,4 por dia). Ou seja, “pouco mais de metade (56%) da despesa média total” do país, frisa o INE. No outro extremo, as famílias com rendimento equivalente correspondente ao 5º quintil (os 20% de famílias com maiores rendimentos) registavam uma despesa média total de €32 803 por ano (€90 por dia), ficando cerca de 61% acima da média nacional.

Por regiões, a desigualdade da despesa média anual entre os agregados com maiores e menores rendimentos era mais significativa no Norte. Nesta região, em 2015/2016, os 20% de agregados com maiores recursos gastavam, em média, três vezes mais do que os 20% de famílias com menores recursos. Um valor que compara com 2,9 vezes a nível nacional. No extremo oposto fica a Região Autónoma da Madeira, onde os 20% de famílias com maiores rendimentos gastavam 2,3 vezes mais do que os 20% de famílias com menores rendimentos.

Habitação, transportes e alimentação concentram 60% das despesas

São os componentes mais importantes — e pesados — nos orçamentos das famílias em Portugal. Em conjunto, habitação, alimentação e transportes concentravam 60,3% da despesa total anual média das famílias residentes em Portugal em 2015/2016. São mais 3,3 pontos percentuais do que no início da década.

Separando por classes de produtos e serviços, do total das despesas 31,9% destinavam-se a "habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis", 14,3% a despesas em "produtos alimentares e bebidas não alcoólicas" e 14,1% a despesas em "transportes".

A concentração da despesa nestas classes de bens e serviços prolonga o perfil observado nas famílias em Portugal desde o início do século, aponta o INE. Contudo, "com perda de importância relativa" das despesas com "produtos alimentares e bebidas não alcoólicas", que representavam 18,7% do total em 2000. Em sentido inverso, o peso das despesas com "habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis" aumentou de 19,8% do total em 2000, para 31,9% em 2015/2016.

Texto publicado na edição do Expresso Diário de 17/07/2017

1
1