expresso.sapo.ptPaulo Barradas - 18 jul 08:23

O dinheiro da solidariedade é de quem?

O dinheiro da solidariedade é de quem?

Opinião de Paulo Barradas

E assim se passou um mês desde a vergonha nacional que foi o incêndio em Pedrógão Grande e regiões adjacentes. Passada a comoção e a revolta do momento, partilhada por todos os portugueses, resta a passividade dos mesmos, que toleram agora a inatividade dos responsáveis políticos e públicos deste país.

À falta de interesse em apurar responsabilidades dos organismos públicos e dos políticos que deveriam proteger os cidadãos, enquanto representantes do Estado, junta-se a incapacidade de identificar e corrigir os erros cometidos.

Ainda que, por motivos meramente académicos, consideremos que seja possível recriar, três ou quatro meses depois do desastre (ou vão trabalhar em agosto?), todas as disfuncionalidades no comportamento de todas as partes envolvidas em tamanho exemplo de descoordenação e incompetência, será no mínimo inaceitável não terem sido corrigidas as falhas graves antes do fim da época de incêndios em Portugal.

No entanto, é muito provável que os resultados das investigações apontem para causa natural, entre calor extremo e fenómenos naturais do género, que ilibem qualquer responsabilidade dos envolvidos, pois são todos bem-intencionados e estão solidários e de consciência tranquila. Principalmente porque estas conclusões óbvias só serão conhecidas após as eleições autárquicas de outubro, convenientemente e justificadamente, porque será precisa muita imaginação e criatividade para aí chegar.

No hilariante exemplo do caso de Tancos, apenas foram necessárias três semanas para um crime grave de roubo de material militar que “humilhou” o CEME passar a ser uma brincadeira de “socos no estômago” com sucata de 34 mil euros. Obviamente não existem responsáveis porque não existe responsabilidade. Pois as brincadeiras são mesmo assim…

Infelizmente, nada disto já choca os cada vez menos exigentes portugueses, especialmente em período de férias. Mas pouco se tem falado dos 13 milhões de euros angariados pelo espetacular movimento de solidariedade da sociedade portuguesa e da sua aplicação, ou da falta desta.

E pelo menos isto devia chocar quem contribuiu e quem voltou a confiar nas instituições com o seu dinheiro para ajudar a população em dificuldades. Apenas se sabe que o dinheiro não chegou ao seu destino e que pessoas que ficaram sem nenhum tipo de rendimento continuam na mesma situação passado um mês…

Pelo menos este caso devia ser levado a sério e dada uma explicação detalhada e fundamentada, com responsabilidade e responsáveis… mas desta vez sem brincadeiras.

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