www.dn.ptAna Rita Guerra - 18 jul 01:04

Carta De Los Angeles - Felicidade anacrónica

Carta De Los Angeles - Felicidade anacrónica

A jovem mulher aproximou-se da mesa para perguntar se precisava de assistência. Tinha bijutaria a adornar a testa e batom azul, um visual meio futurista e apropriado ao local: era o primeiro bar do mundo em que os empregados de balcão são robôs. Enquanto admirava o trabalho daqueles bartenders robóticos, que trabalham no Tipsy Robot em Las Vegas, ponderei quanto tempo levará até que este cenário deixe de ser uma curiosidade para passar a ser o novo padrão. A resposta veio umas horas mais tarde, já de volta a Los Angeles, numa sessão incrivelmente assustadora do futurista Gerd Leonhard.

É um visionário que vive na Suíça e com quem já conversei várias vezes ao longo dos últimos anos. As suas previsões costumam ser um pouco chocantes, mas a verdade é que ele tem acertado nas tendências. Desta vez, delineou um futuro a 10-20 anos em que tudo será radicalmente diferente dos últimos 300 anos. Uma década será suficiente para transformar a maneira como vivemos? Talvez. Estamos num ponto de inflexão para tecnologias de inteligência artificial e realidade virtual que não existiam há apenas alguns anos. Basta pensar que o iPhone foi introduzido há dez anos e trouxe consigo uma revolução de computação, serviços na nuvem e aplicações móveis que puseram indústrias de pernas para o ar - desde os táxis com o Uber ao alojamento local com o Airbnb. A própria inteligência artificial embebida nos smartphones que trazemos nos bolsos está a avançar a passos largos de uma forma que era impensável no início desta década.

"A ficção científica está a tornar-se facto científico", declarou Gerd Leonhard, prevendo que os filhos dos nossos filhos nunca aprenderão a conduzir um carro e irão recusar-se a estudar outras línguas, porque os computadores farão tradução em tempo real. O futuro, disse ele, já não é uma extensão do presente. Já nada é linear. Até a era da disrupção trazida por empresas como a Uber acabou; agora, trata-se de construir novas coisas. Surgirão novas oportunidades, e outras estarão perdidas para sempre.

Aquelas projeções que apontam para que os robôs eliminem milhões de empregos nas próximas décadas são assustadoras, e provavelmente estão certas. No entanto, Leonhard tem uma visão diferente deste problema. Diz que os robôs não vão roubar os nossos empregos, mas sim as nossas tarefas. "Tudo o que puder ser digitalizado ou automatizado, sê-lo-á", declarou. Os computadores não conseguem entender a ineficiência humana, e essa é a chave para encarar o que se irá passar nos próximos anos: a ideia de tornar os humanos em máquinas eficientes é contranatura e as empresas que abordarem assim os seus recursos humanos vão espetar-se no cimento. Leonhard acredita que passaremos a trabalhar muito menos, talvez um par de horas por dia, e poderemos dedicar-nos a outras iniciativas de valor acrescentado. "Tudo o que não possa ser digitalizado ou automatizado vai tornar-se muito mais valioso." A modificação que ele antevê é brutal: como é que vamos reorganizar a sociedade para dias de trabalho tão pequenos? Como é que vamos redistribuir salários? "Tecnologia não é aquilo que procuramos. Procuramos algo com uma ferramenta, não a ferramenta em si." A tecnologia é uma ferramenta e acredito que, por si só, não é boa nem má.

Leonhard é um otimista e acredita que esta transformação levará a mais efeitos positivos do que negativos. Para isso, adverte, vamos precisar de líderes mundiais capazes de trabalhar em conjunto e definir regras universais e rigorosamente defendidas. Se for possível a programação genética, quais são as regras? Se a inteligência artificial estará em todo o lado, quem irá controlá-la? Se plataformas como Google e Facebook detêm as nossas informações pessoais, como teremos garantias de privacidade?

É verdade que as histórias de ficção sobre máquinas que um dia decidem exterminar a humanidade partem de um pressuposto errado: motivo. Os computadores não terão qualquer motivo para causar um holocausto na Terra. O perigo, diz Leonhard, não é que as máquinas venham para nos matar, é que nos tornemos como elas, que façamos um outsourcing do nosso pensamento.

"Estamos a libertar poderes enormes. A solução é decidir o que fazer com eles", disse. Mas aquilo que devemos todos ter em conta quando olhamos para a tecnologia que nos engole e o futuro que nos reserva, é isto: a felicidade não pode ser automatizada. Nunca haverá substituto artificial para ela.

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