www.dn.ptJoão Lopes - 18 jul 01:00

Opinião - Sob o signo de Marilyn Monroe

Opinião - Sob o signo de Marilyn Monroe

A ação do nono episódio da segunda temporada de Mad Men (emitido a 28 de setembro de 2008) inicia-se a 6 de agosto de 1962, um dia depois da morte de Marilyn Monroe. Eis um detalhe histórico que vale a pena recordar, em particular por contraste com as muitas séries mais ou menos medievais, eventualmente futuristas (hoje em dia, é mesmo moda considerar que uma coisa implica a outra). Até porque a evocação daquela morte não decorre de qualquer efeito naturalista (?), típico das narrativas que confundem a mera inventariação dos factos com uma forma de contextualização e, mais do que isso, um método de dramatização.

Sabemos da notícia da descoberta do cadáver de Marilyn através da manchete do jornal que Don Draper (Jon Hamm) recolhe de manhã, na porta do seu quarto no Hotel Roosevelt, em Manhattan - o casamento com Betty (January Jones) está mais fragilizado do que nunca e a tragédia que o jornal regista parece ser um eco dantesco de tudo aquilo que assombra o dia-a-dia das personagens.

Através do nome de Marilyn, Mad Men consegue a proeza de integrar um acontecimento emblemático da época retratada, sem o encerrar em qualquer simplismo simbólico. A morte de Marilyn instala-se mesmo na agência de publicidade como "coisa" orgânica que, afinal, contamina o comportamento de todos: homens e mulheres surgem remetidos a uma solidão primordial, distantes de qualquer dimensão mitológica ou ilusão espetacular, abrindo o caminho de um luto que a maior parte das personagens nunca pensou enfrentar. Não é todos os dias que a televisão sabe expor, assim, as linhas frágeis com que se tece o individual e o coletivo, ou melhor, o individual através do coletivo. Subitamente, Marilyn é apenas uma mulher que morreu - não poderia haver notícia mais radical.

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