www.dn.ptJosé Augusto Cardoso Bernardes - 18 jul 01:01

Opinião - Os 300 anos da Biblioteca Joanina

Opinião - Os 300 anos da Biblioteca Joanina

A 17 de julho de 1717, pelas seis da tarde, na presença do reitor Nuno da Silva Telles (o segundo deste nome), foi solenemente colocada a primeira pedra da Casa da Livraria, a mesma que viria depois a ser conhecida por Biblioteca Joanina. Tudo acontecia na sequência de um pedido do mesmo reitor dirigido ao rei, no ano anterior, para que a universidade fosse dotada de uma biblioteca digna.

Depois de iniciada, a obra decorreu sem interrupções nem percalços de maior. De tal forma que no início de 1728 o edifício era dado por concluído. A universidade passava assim a dispor de uma biblioteca que vinha substituir com evidente vantagem as diferentes casas que, em Lisboa e em Coimbra, tinham servido para acomodar os seus livros.

Ao longo de 300 anos, o edifício viria a ser objeto de pequenas transformações exteriores e interiores que não lhe afetaram a traça nem a função. Em 1962, quando o edifício novo abriu ao público, a Joanina deixou de ser frequentada por leitores regulares. Só em ocasiões especiais se abriam as portas para receber visitantes ilustres como chefes de Estado ou personalidades do mundo da ciência, das artes ou da cultura.

Há cerca de 25 anos, a biblioteca passou a acolher também turistas. Num primeiro momento, ficou apenas disponível a visita ao piso nobre; depois, passou a ser possível aceder aos outros dois pisos: o intermédio e o térreo, o mesmo onde, por algum tempo, funcionou o cárcere académico.

Hoje, são em grande número as pessoas que procuram aquele espaço, integrado no circuito turístico da universidade. Mesmo quando prevenidos para o que vão encontrar, os visitantes não deixam de se surpreender quando transpõem a pequena porta que dá acesso ao piso principal. Boa parte deles vêm do estrangeiro e não esperam encontrar em Portugal uma celebração tão exaltante do livro e do conhecimento. Ficam ainda mais surpreendidos quando lhes dizem que os volumes que se guardam naquele espaço (cerca de 60 mil, todos editados até ao ano de 1800) ainda hoje são objeto de procura.

A Biblioteca Joanina é da universidade que a reclamou e a construiu. Mas é também de Coimbra e do país inteiro. Na medida em que enaltece a curiosidade do ser humano, pode mesmo dizer-se que é de todos os que nela encontram motivo para fascínio e orgulho.

Neste ano vão assinalar-se os 300 anos da construção daquele que é um dos mais extraordinários edifícios construídos em solo português.

Quase não é necessário insistir na beleza e no valor patrimonial daquela que tem sido apontada como "uma das bibliotecas mais belas do mundo". A importância da velha Casa da Livraria, porém, não reside apenas no seu aparato. Acima de tudo, as mensagens da Joanina apontam para a importância insubstituível do livro enquanto instrumento central da emancipação humana.

Estávamos então no tempo das bibliotecas e não admira que várias outras tenham surgido ao mesmo tempo por toda a Europa, ligadas ou não a universidades. Ainda assim, poucas são aquelas que assinalam uma mensagem tão forte e tão clara, fazendo, em simultâneo, a apologia da beleza e da razão.

De entre as várias iniciativas previstas, ao longo de 2017 e nos anos mais próximos, encontra--se já assegurada uma emissão de selos comemorativos. Haverá ainda palestras, exposições, um programa de música e edições de livros. Algumas dessas iniciativas terão por objeto a própria Biblioteca Joanina, envolvendo as incertezas que subsistem acerca da sua génese. O propósito maior, porém, será o de analisar o ideal de biblioteca, lembrando o papel agregador que ele desempenhou ao longo dos séculos bem como a função (ainda essencial) que lhe cabe cumprir na universidade dos nossos dias.

Diretor da Biblioteca Geral

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