visao.sapo.ptAdolfo Mesquita Nunes - 18 jul 11:26

O primeiro governo sem oposição de esquerda

O primeiro governo sem oposição de esquerda

Ter o apoio de toda a esquerda permite assim um debate político mais sereno, menos demagógico, o que favorece quem governa

Uma maioria parlamentar de esquerda, unida no apoio a um governo socialista, é um facto inédito da nossa democracia, que tem motivado análises sobre a possibilidade de uma consensualização socialista e progressista à esquerda que funcione como alternativa ao consenso conservador e liberal que existe à direita, ou sobre a transformação que pode provocar na extrema-esquerda, moderando-a, ou no próprio PS, encostando-o à esquerda.
Tem-se prestado menos atenção à decorrência imediata desta maioria: a inédita ausência de uma oposição de esquerda a um governo.

Nunca antes, na nossa democracia, um governo tinha contado com o apoio mais ou menos expresso, mais ou menos tímido, de toda a esquerda parlamentar, mesmo da mais radical. Esta circunstância tem consequências no funcionamento do nosso sistema político que merecem ser registadas.

Em primeiro lugar, este é o primeiro governo que não sofre a pressão da rua, instrumentalizada que sempre foi pelos partidos à sua esquerda através de sindicatos e associações. Nenhum outro primeiro-ministro pôde organizar política e mediaticamente a sua governação sabendo de antemão que não teria de lidar com a rua. Ninguém impede o PSD e o CDS de convocar manifestações ou incentivar greves, bem o sabemos, mas esse não é o seu estilo ou o seu eleitorado. .

Em quarto lugar, este arranjo parlamentar permite centrar o debate político nos anos do resgate, anos de chumbo para os portugueses, e daí partir para a comparação com os tempos presentes. Aquilo que une a maioria parlamentar é a rejeição de PSD e CDS e por isso todo o debate é para aí canalizado. Ora, o debate comparativo entre governos, sobretudo quando se compara um governo anterior que governou sob resgate e um Governo atual que herda um país em recuperação económica, tende a favorecer quem está. Ter o apoio de toda a esquerda permite assim ao Governo fugir da discussão das suas políticas, estando em permanente comparação com os tempos da troika.

Em quinto lugar, este é o primeiro governo que tem de lidar com uma oposição mais ou menos homogénea, não tendo de enfrentar críticas contraditórias, que obrigam a estratégias paralelas de defesa. Todos os anteriores governos tiveram de criar estratégias para responder quer aos ataques da extrema-esquerda quer aos ataques das forças moderadas, o que obrigava, do ponto de vista político e mediático, a um esforço suplementar. Ter o apoio de toda a esquerda permite assim ao Governo concentrar a sua defesa a um conjunto delimitado e mais previsível de ataques.

No seu conjunto, estas consequências, que me limito a constatar sem me lamentar, favorecem uma certa hegemonia mediática do Governo e obrigam os partidos à direita, desacompanhados que estão da oposição à esquerda, a atualizar os seus métodos e estratégias, num fenómeno politicamente muito interessante e que não tem merecido grande reflexão.

(Artigo publicado na VISÃO 1271, de 13 de julho de 2017)

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