www.dn.ptNuno Garoupa - 18 jul 01:05

Terças-feiras Do Contra - O novo ciclo político ou tudo na mesma? 

Terças-feiras Do Contra - O novo ciclo político ou tudo na mesma? 

Até ao dia 16 de junho, tudo parecia correr bem ao governo. O otimismo económico, aliado a um conjunto de boas notícias, com uma excelente máquina de comunicação e a cumplicidade do Presidente da República, tudo junto parecia abrir caminho a uma maioria absoluta do PS. E depois chegou 17 de junho. Pedrógão Grande. Tancos. Queda de três secretários de Estado (mais assessores e chefes de gabinete) por questões do foro judicial. E as boas notícias que vão sendo conhecidas (inclusivamente a revisão em alta do crescimento económico) já não conseguem ser capa de jornal nem abertura do noticiário. A conjuntura mudou. Tudo parece correr mal ao governo.

Evidentemente, entrámos numa nova fase do ciclo político, com o governo fragilizado (mesmo depois da minirremodelação) e com dificuldades de comunicação. O espírito Expo"98 sem Expo morreu a 17 de junho com as 64 vítimas de Pedrógão Grande. O país foi novamente confrontado com a sua realidade - quando há uma emergência, o Estado não funciona. Por incompetência, por laxismo, por inércia, por negligência. Dificilmente o governo voltará a ter uma conjuntura tão favorável como nos últimos 18 meses.

Quando um governo entra na fase menos otimista do ciclo político, presume-se que são boas notícias para a oposição. Principalmente, no contexto português, em que a oposição da direita normalmente não propõe absolutamente nenhuma alternativa, mas apenas aguarda o apodrecimento institucional do governo. Foi assim com o pântano guterrista e, depois, com a bancarrota sócrista. O PS apodreceu e a direita ali estava à espera que o poder lhe caísse no regaço. Como dizia Durão Barroso, nos idos de 2000 e depois de perder as legislativas de 1999, "sei que vou ser primeiro-ministro, só não sei quando".

Como tenho escrito muitas vezes, e para grande tristeza da atual direita partidária, o problema é que a realidade mudou em 2015 e a tática de esperar pela crise do PS é profundamente errada. Mais, deixará o PS governar muitos e longos anos, com todos os ciclos negativos que possa ter. A direita não tem nem os votos nem os deputados para a maioria absoluta. Nem terá enquanto insistir na receita do "mais do mesmo". Claro, existem umas almas à direita com teorias espetaculares: há um "PS bom" que vive reprimido pelo atual "PS mau". Quando o "PS mau" tiver uma profunda crise, aparece o "PS bom", livra-se imediatamente do Costa e vai entregar o poder direitinho a Passos Coelho. Ora, o "PS bom" não existe, nunca existiu (o PS evidentemente serve os desígnios de poder da sua área política) e não pode existir. E é simples perceber porque não pode existir. O PS teve 32% nas últimas eleições. Só que, na distribuição etária, o PS praticamente empata com o BE na geração abaixo dos 30, sendo largamente o partido mais votado na geração acima dos 55. Tal como disse numa entrevista ao Expresso, logo depois das eleições, ou o PS engole o BE ou o BE engole o PS na próxima década ("Só engolindo o Bloco, o PS pode ganhar eleições no futuro"). Porque o PS atual é um partido profundamente envelhecido. O futuro do PS está inevitavelmente ligado ao BE, porque a geografia e a demografia eleitorais assim impõem. Um "PS bom", aliado de Passos Coelho e da direita, não tem qualquer respaldo eleitoral. Arrisco mesmo: seria o fim do PS, ao melhor estilo grego ou francês.

Resta perceber porque a direita, apesar de todas as vicissitudes do governo, continuará na oposição. A direita tem um problema de lideranças, de caras, de quadros, de ausência de ideias, de estratégia. Mas, fundamentalmente, a direita não tem votos para governar. Perdeu 700 mil votos em 2015 (uma grande vitória segundo as suas lideranças). Não os recuperou. Não os vai recuperar enquanto estiver onde está. Com ou sem Diabo. E também é fácil perceber. A direita teve 39% e precisa de chegar aos 45% (em coligação, provavelmente um pouco menos). Ou a esquerda fica maciçamente em casa (de forma que os 2,1 milhões de votos da direita possam ser os tais 45% em futuras eleições), o que parece muito pouco provável, ou tem de ir buscar parte dos eleitores que rejeitaram Passos em 2015. Acontece que a distribuição etária do voto pàfiano também é interessante. A coligação teve, genericamente, 42% em todos os grupos etários, mas cai para 30% no grupo 55-64, os pré-pensionistas. Este grupo, porém, apresenta menor abstenção (ao contrário dos grupos etários mais baixos). Portanto, a direita, ou recupera votos no grupo 55-64 (o que parece impossível com as atuais lideranças que são, justa ou injustamente, as caras da austeridade) ou vai buscar votos aos grupos mais jovens (que não votam, nem parecem dispostos a votar). Consequentemente, enquanto persistirem os mesmos com as mesmas conversas, a direita ficará na oposição. Muito tempo.

PS - Eu não sei se Portugal tem oficiais generais a mais ou a menos. Sei que tem o número de oficiais generais que PS, PSD e CDS decidiram que Portugal deve ter (não são uma herança do Estado Novo quase 45 anos depois). Não percebo, pois, que o número de oficiais generais (assim como o seu custo orçamental) possa ser uma arma de arremesso partidário no atual passa-culpas, quando ele resulta de uma decisão democrática de PS, PSD e CDS. Aliás, o mesmo argumento aplica-se aos juízes, procuradores, diplomatas, investigadores e, genericamente, a todos os funcionários públicos.

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