expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 18 jul 10:25

Theresa May deverá enfrentar golpe interno quando regressar das férias

Theresa May deverá enfrentar golpe interno quando regressar das férias

Fontes conservadoras dizem que a primeira-ministra está a salvo para já mas que alguns deputados do seu partido continuam investidos em afastá-la quando o Parlamento regressar ao trabalho no outono

O Brexit está a provar-se, mais do que uma dor-de-cabeça, uma enxaqueca para a primeira-ministra do Reino Unido, que sucedeu a David Cameron no rescaldo do referendo de junho de 2016, em que uma maioria dos britânicos votou a favor da saída da União Europeia. E mais do que a antecipada batalha nos corredores europeus, o grande combate que enfrenta está a decorrer em casa.

Depois de ter saído escaldada das eleições antecipadas que decidiu convocar para o mês passado na tentativa de reforçar a sua maioria parlamentar — e, com isso, a sua mão para as negociações com Bruxelas — Theresa May continua a enfrentar enormes divisões dentro do seu Partido Conservador que ameaçam depô-la da liderança do partido e da chefia do Executivo.

Apesar da sua recente tentativa de reconquistar autoridade, ordenando aos membros do seu governo que parem de avançar informações aos media sobre as querelas internas do partido quanto ao Brexit, May parece destinada a enfrentar uma tentativa de golpe por uma fação conservadora quando o Parlamento retomar os trabalhos depois das férias de verão.

Assim têm avançado fontes sob anonimato aos jornais britânicos esta semana, numa altura em que faltam poucos dias para os deputados irem de férias. Para já, dizem as fontes, May está a salvo, mas no outono a ala do partido que se opõe à primeira-ministra vai retomar os esforços para a ver ser substituída por David Davis, atual ministro do Brexit, por Philip Hammond, responsável pelo Tesouro, por Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros, ou por outra figura sénior conservadora.

David Davis é um dos candidatos ao cargo de May, mas alguns apoiantes do Brexit olham-no com desconfiança

David Davis é um dos candidatos ao cargo de May, mas alguns apoiantes do Brexit olham-no com desconfiança

Leon Neal / Getty Images

Partido dividido

Neste momento, já há uma carta de não-confiança a circular entre os deputados conservadores, embora com poucas assinaturas recolhidas até agora. É com essa carta e com as contínuas delações aos media a ensombrá-la que May vai reunir-se com os seus ministros esta terça-feira — com o “The Guardian” a avançar esta manhã que a chefe do Governo vai lembrá-los das suas responsabilidades e da necessidade de "avançar com o cumprimento do Brexit".

De acordo com uma fonte sénior do partido citada pelo jornal, o sucesso dos esforços para depor May vai depender da capacidade dos críticos para convencerem suficientes deputados de que existe um candidato melhor para a substituir.

A fonte diz que os conservadores estão divididos em várias categorias: alguns defendem que “ela deve deitar-se na cama que fez”, outros que “ela é nossa prisioneira e está à mercê do partido”, outros ainda que a querem afastada do poder até ao Natal. A mesma fonte questiona, contudo, se haverá dissidentes suficientes para garantir o afastamento de May — algo que só poderá acontecer se pelo menos 50 deputados do partido enviarem cartas a Graham Brady, o líder da comissão 1922, a pedir-lhe que convoque eleições primárias.

Outra fonte sénior alega que, apesar de haver muitos conservadores desejosos de ver May pelas costas, existe uma resistência muito mais “unânime” a qualquer passo que possa traduzir-se em novas eleições legislativas, por se antecipar que seria Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista, a vencê-las.

Corbyn pode sair a ganhar com as divisões conservadoras sobre May

Corbyn pode sair a ganhar com as divisões conservadoras sobre May

DANIEL LEAL-OLIVAS / Getty Images

Neste momento, a ala conservadora que apoia o Brexit (e que já formou o chamado European Research Group para fazer lobby no decorrer das negociações de saída com Bruxelas) está empenhada em garantir que nada destabiliza os seus esforços. E, a par disso, existe pouco consenso sobre os principais candidatos ao lugar de May: apesar de ter feito campanha pelo Brexit, Davis é olhado com desconfiança por alguns dos apoiantes da saída da UE; o mesmo acontece com Hammond, por causa dos comentários que tem tecido em reuniões governamentais e que têm ido parar à imprensa.

Na segunda-feira, uma fonte anónima do governo britânico avançou ao “Telegraph” que o Tesouro ao leme de Hammond “quer frustrar o Brexit” e que o chanceler olha para os defensores da saída do bloco como “piratas” que têm de ser travados. Ao tabloide “The Sun”, um aliado de Hammond garantiu logo a seguir que a fonte de parte destas fugas de informação para os media é Michael Gove.

Os amigos do ministro do Ambiente foram rápidos a rejeitar as alegações como “simplesmente falsas”, contra outras fontes do partido que garantem que tem sido ele e Boris Johnson que têm estado a passar informações contra Hammond à imprensa. Uma fonte sénior garante que os dois ministros “estão tão obcecados com um hard Brexit que estão preparados para empurrar a economia [britânica] do precipício”.

“Um governo sem autoridade”

Na semana passada, depois de May ter tentado fortalecer a sua liderança com um discurso em que prometeu aos conservadores uma agenda doméstica mais audaz e o avanço sem demoras do Brexit, alguns deputados revelaram que foram convidados a assinar uma carta de não-confiança contra a líder.

Um deles, apoiante do Brexit, disse ao “The Guardian” que só ainda não assinou a moção porque tem dúvidas sobre os potenciais sucessores de May, temendo a hipótese de ser um opositor da saída da UE a vencer as primárias.

Em entrevista à BBC dias depois, um antigo vice-primeiro-ministro do Reino Unido pôs o dedo na ferida ao declarar que o governo de May está debilitado e profundamente dividido, "sem autoridade" para governar. No programa World at One da rádio 4 da BBC, Michael Heseltine sugeriu que o responsável ou responsáveis pelas fugas de informação é ou são apoiante(s) do Brexit “porque é aí que estão concentrados os interesses” subliminares dessas delações — lembrando que May não tem autoridade para despedir os autores das fugas caso apure quem eles são.

Michael Heseltine, figura sénior do Partido Conservador, acredita que May já não vai estar no poder quando houver novas eleições

Michael Heseltine, figura sénior do Partido Conservador, acredita que May já não vai estar no poder quando houver novas eleições

Carl Court / Getty Images

“Temos um governo debilitado, toda a gente sabe disto, não gosto de o assumir mas não estou a dizer nada que todos os jornalistas não estejam a escrever todos os dias”, declarou aquele que foi o número dois do governo conservador de John Major entre 1995 e 1997. “Este é um governo sem autoridade, um governo profundamente dividido e o que eles sabem, o que os europeus sabem e o que a nossa imprensa nacional sabe, é que a cada dia surge uma nova manchete ainda mais deprimente que a anterior.”

No final de junho, Heseltine já tinha declarado ao mesmo programa que o acordo alcançado por May com os Unionistas da Irlanda do Norte para continuar no poder no rescaldo das eleições antecipadas põe em risco o seu próprio cargo. “Temos um país profundamente dividido e dar destaque a uma só parte [do país] para dar uma aparência de estabilidade no curto prazo é só um dos preços que estamos a pagar pelas consequências do Brexit. [...] Theresa May não vai ser a líder do Partido Conservador quando chegar a altura de novas eleições.”

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