tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 18 jul 10:14

Roger Federer, uma questão de sprezzatura

Roger Federer, uma questão de sprezzatura

Aos quase 36 anos e cinco após a última vitória em Wimbledon, Roger Federer voltou a ser rei no All England Club. E continua a fazê-lo como em 2003, ano em que venceu pela primeira vez em Londres: sem suor, só com graça e beleza, qual artista do renascimento

No domingo, quando Roger Federer se levantou da cadeira para agarrar pela oitava vez o troféu de Wimbledon - o primeiro homem a levantar-se oito vezes da cadeira para agarrar um troféu de Wimbledon -, não levava um blazer e umas calças pérola ou um casaquinho de malha com pormenores debruados a dourado como em outras edições do torneio londrino. Limitou-se a colocar o relógio no pulso e assim foi, com a mesma t-shirt com que derrotou Marin Cilic, sem uma pinga de suor.

Porque assim é Roger Federer.

Aos 35-quase-36 anos, Federer já não está fresco como em 2003, quando se levantou da cadeira pela primeira vez, de cabelo grande e barba por fazer. Mas em 2017 como em 2003, 14 anos e 19 torneios do Grand Slam depois, mantém aquilo que os italianos, que adoram tudo o que é belo, chamam de sprezzatura, termo só deles e muito deles - um pouco como a saudade é só nossa e muito nossa -, que vem lá dos tempos do Renascimento, e que significa fazer algo muito bem, cheio de graça e beleza, sem qualquer tipo de esforço.

Federer não é de Roma ou Florença, nem sequer vem de Ticino, a Suíça onde se fala italiano. Não pinta como Rafael ou Da Vinci, não molda o mármore como Miguel Ângelo, porque a sua arte é outra. Nesta modernidade em que vivemos, não h�� epítome maior de sprezzatura que o homem que joga o mais belo ténis que alguma vez vimos, sem suor, sem esforço, como se todos os astros se alinhassem e o os corações saltassem um batimento cada vez que aquela esquerda paralela a uma mão entra ou aquele passing-shot não encontra resposta ou reação do outro lado da rede.

Roger Federer bateu Marin Cilic e conquistou o 19.º torneio do Grand Slam da carreira

Roger Federer bateu Marin Cilic e conquistou o 19.º torneio do Grand Slam da carreira

NIC BOTHMA / EPA

Roger Federer tem hoje 35-quase-36 anos e eu nunca pensei voltar a escrever sobre as suas vitórias. Porque de repente o ténis começou a ser dominado por paredes de tijolo bruto e a beleza passou a ser coisa secundária. Tanto que Federer, lesionado, sem ganhar qualquer torneio do Grand Slam desde 2012, anunciou há um ano, mais coisa menos coisa, que ia arrumar 2016 e tratar de si, ou melhor, de um joelho que não o deixava ter a intensidade ou a força dos outros. E quando os outros deixaram de ter intensidade e força, Federer voltou e continuou a ter sprezzatura.

O que aconteceu nos últimos meses é, em todos os sentidos, impressionante. Porque Federer não só recuperou fisicamente como, já no lado pesado dos 30, aperfeiçoou o seu jogo. A esquerda, que já era um assombro, está mais mandona e as subidas à rede mais ponderadas e certeiras. O serviço e resposta tornaram-se mais venenosos. E depois de ganhar o Open da Austrália no início do ano, chegou a vitória em Wimbledon, sem perder um set que fosse, o único a conseguir tal feito na catedral da relva depois de Bjorn Borg em 1976.

Na final de domingo não houve dúvidas ou perigos. Cilic esteve lá durante 20 minutos, depois Federer quebrou-lhe o serviço e, pelo meio, quebrou-lhe também a alma. Absorveu toda e qualquer força do croata, que teve dois adversários pela frente: uma enorme bolha no pé e um suíço em modo sobrenatural. Ao longo dos 100 minutos que durou a final, Federer fez meros oito erros não-forçados e atirou 23 winners. Cilic, entre a dor, a frustração e a impotência, sentimentos que, como qualquer sentimento, são incorpóreos mas que no domingo, no Centre Court do All England Club, quase se podiam agarrar, teve de parar a meio, colocar uma toalha na cabeça e chorar. E nem foi chorar de catarse, foi chorar para simplesmente conseguir continuar.

Muitos já sentiram a frustração de defrontar Federer. Lembro-me de, no torneio de Basileia de 2002, ainda o suíço tinha cabelo grande e barba rala, Andy Roddick oferecer-lhe a sua raqueta, como polícia que entrega a sua arma. Federer tinha respondido a um smash do norte-americano com um passing-shot atirado em suspensão - coisa que, até então, eu achava humanamente impossível.

Os herdeiros de Federer: as gémeas Myla Rose e Charlene e os gémeos Leo e Lenny

Os herdeiros de Federer: as gémeas Myla Rose e Charlene e os gémeos Leo e Lenny

Daniel Leal-Olivas / Reuters

Vi isso (às vezes ainda vou rever, só para confirmar se realmente aconteceu), mas nunca tinha visto um gigante de 2 metros chorar. É uma coisa quase bíblica. Razão tinha David Foster Wallace que via Federer como uma experiência religiosa - ele teria gostado de estar cá para ver este renascimento. Eu, como não acredito em esoterismos, prefiro acreditar que Federer, a sprezzatura de Federer, é apenas injusta para os outros, para os demais seres humanos que fizeram do ténis a sua profissão no últimos 20 anos.

Injusto mas, apesar de tudo - e é aí que também está o fascínio -, um homem. Que teve a humildade de parar e perceber o que pode um corpo de 35-quase-36 anos fazer, que conforta os adversário antes de exibir a sua felicidade, que desata a chorar quando vê os quatro filhos na tribuna, dois pares de gémeos, os mais novos, os rapazes Leo e Lenny, nem sequer eram nascidos nas última vitória do pai em Londres, em 2012.

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