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Na estrada com Salvador Sobral

Na estrada com Salvador Sobral

O PÚBLICO acompanhou parte da nova vida do vencedor da Eurovisão. Primeiro em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, depois numa viagem rumo à Casa da Música, no Porto, onde regressa esta terça-feira.

Que a vida de Salvador Sobral mudou desde a inesperada vitória na Eurovisão é um facto. E isso é evidente quando o músico põe um pé fora de casa ou do carro, quando se olha para a agenda de concertos, todos esgotados até Outubro, e também para a vida que agora é feita de quilómetros, de Norte a Sul do país.

O PÚBLICO acompanhou parte desta nova vida, marcando presença nos momentos que antecederam o segundo concerto no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a 3 de Julho, e na viagem rumo ao Porto, dois dias depois. Duas salas emblemáticas numa digressão que pretende levar ao país o álbum Excuse Me, e que esta terça-feira está de regresso à Casa da Música (CdM).

Na primeira etapa desta jornada não houve estrada para andar, até porque Lisboa é a cidade de Salvador, o que tornou estes concertos “especiais”, admitiu o próprio. Cerca das 18h, três horas antes do início do espectáculo, a banda – composta por Júlio Resende no piano, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria – entra em palco para fazer apenas alguns ajustes de som, até porque o ensaio geral já se tinha dado na véspera. Antes, tinha havido tempo para acomodar o estômago na sala do catering. Aí, Salvador explica que há “um camarim para o cantor e outro para os músicos”. “Mas nós juntamo-nos todos no mesmo”, ressalva. “Até porque, neste caso, o cantor também é músico”, completa Rosinha. “Uau, esse é o melhor elogio de sempre!”, atira Sobral. E a verdade é que esta conversa iria ser relatada em pleno palco da CdM, como aliás acontece com grande parte do que se passa nos bastidores.

No palco principal do CBB, com a plateia ainda vazia, o quarteto ensaia. Ou melhor, aproveita para se divertir. “Júlio is back!”, grita Salvador, depois de um solo de Resende. As exclamações de espanto e satisfação, tal como durante os espectáculos, sucedem-se a cada solo de piano, contrabaixo ou bateria. No final, uns minutos para treinar a última parte do alinhamento. Aí, como um mentor para o aluno, Júlio Resende dá algumas dicas: “Tu consegues fazer a canção mais tua." “Não vou conseguir aprender nada agora”, responde Salvador. Mas a verdade é que por lá continuou a ouvir o “padrinho” musical.

Ajustados os últimos pormenores, tempo de jantar e de descontrair no tal camarim “comum” – com música, claro. De phones nos ouvidos ou numa coluna portátil, o DJ de serviço é Salvador. Ouve-se Wouldn't it be nice dos Beach Boys, o que vale uns passinhos de dança. “Viste aquele filme do John Cusack sobre o Brian Wilson?”, pergunta o cantor referindo-se a Love & Mercy. “Muito bom!”.

A poucos minutos de se subir ao palco, com a plateia cheia, nada de conversas sobre o concerto, nada de nervos. Pelo menos na aparência.

Ao subir as escadas, a adrenalina cresce. André Rosinha, aos saltos, como se estivesse a preparar-se para entrar num campo de futebol, ainda propõe: “Vamos todos a correr!”, mas entram a andar, já totalmente compenetrados. Mais de duas horas depois, o cantor atira assim que entra no backstage: “Provavelmente o melhor gig que já demos."

Terminada a primeira etapa, tínhamos encontro marcado para dois dias depois, com o Porto no horizonte.

Trezentos quilómetros depois

“No dia em que toda a gente chegar a horas faço uma festa”, desabafa João Pereira, roadmanager da banda, com a carrinha estacionada e pronta para partir no centro de Lisboa, enquanto os minutos passam e ninguém aparece. Salvador chega com mais de meia hora de atraso – tinha ido buscar o carro ao mecânico na esperança de que os problemas do veículo, que tantas dores de cabeça lhe têm dado, estivessem resolvidos. 

Na primeira paragem, para recolher Júlio Resende, surge o primeiro fã, de entre muitos ao longo do dia. Assim que Salvador abre a porta da carrinha para deixar o pianista entrar, um senhor vem simpaticamente cumprimentá-lo: “Segue forte”, recomenda ao despedir-se. Nova paragem na bomba de Aveiras, para aqueles que não tinham tido tempo para almoçar. E aqui, enquanto o músico esperava pelo prato, praticamente todos o cumprimentaram, muitos pedindo fotografias – algo que recusa na grande maioria das vezes, como já explicou publicamente. Já com a carrinha em andamento, alguém, à janela, quase implora por um autógrafo do vencedor da Eurovisão. Dentro do veículo, Salvador assina um papel. A carrinha só volta a parar na CdM.

Durante a viagem, a sempre presente coluna portátil serve para mostrar a nova música de Luísa Sobral. “A minha irmã mandou-me o próximo hit. Vai ser o próximo Amar pelos dois! É lindíssima!”, afirma, entusiasmado, Salvador. “Lembras-te quando tocávamos isto André?”, pergunta depois ao contrabaixista quando passa um samba na coluna. Sem se perceber muito bem como, a questão leva à conversa sobre o hotel onde a banda irá pernoitar. “Tu perdeste a humildade. Quando íamos para Maiorca era uma sorte haver um sofá. Agora queres hotéis com piscina”, atira Sobral para Rosinha. “Olha, para mim a Eurovisão subiu-te à cabeça!”, remata ironicamente. “Está calor cá atrás, malta!”, grita Júlio Resende, sozinho na parte de trás do veículo e depois de uma sesta acompanhada por uma almofada trazida de propósito para o efeito. “Tira a t-shirt!”, ouve-se na parte da frente da carrinha. “O Júlio é a maior diva da banda. Que fique bem claro!”, regista Salvador.

A descontracção impera. “Nunca fiquei nervoso nos concertos. Nunca fui esse gajo. Ainda bem. Só antes da final da Eurovisão fiquei com a boca seca. Imagino que tenham sido os nervos. Mas foi a única vez”, explica o cantor. A Ponte da Arrábida já está à vista. “A última vez que aqui vim foi no Primavera Sound para ver o Bon Iver. Fartei-me de chorar o concerto inteiro”, diz Sobral.

Cerca das 17h40, vê-se a Casa da Música. Os minutos que se seguem não são fáceis para o roadmanager, o homem do volante. Em plena Rotunda da Boavista, cada um dos passageiros dá a sua sugestão de caminho rumo à porta dos artistas. Mas lá se conseguiu estacionar e descarregar o material, e logo três ou quatro telemóveis de transeuntes se levantam para registar a aparição de Salvador Sobral.

Quando se iniciam os testes de som, chega a surpresa preparada para o público do Porto: o psiquiatra Júlio Machado Vaz, que recitará o poema Sinto os mortos, de Sophia de Mello Breyner, ao som de 180 Dias, canção sombria e escura da autoria de Sobral. “O único risco é eu estampar-me no caminho”, diz Machado Vaz, atendendo a que a sua entrada iria ser feita às escuras (mas correrá tudo bem).

A caminho do jantar, Salvador Sobral depara-se pela primeira vez com o cartaz de campanha do candidato do PS à Câmara Municipal do Porto: “Fazer pelos dois” é o slogan de Manuel Pizarro, o que gera gargalhada geral na comitiva. “Olha-me este!”, exclama o cantor entre risos.

Chegados ao restaurante, muitos abordam o músico. “No Porto as pessoas são mais quentes”, nota Salvador. Entre os cumprimentos há um livro. “Dão-me muitos. Selfhelp books [livros de auto-ajuda], normalmente”. Quando a refeição (espetadas de polvo, a que Salvador acrescenta enfaticamente piri-piri) se encaminha para o fim, a equipa começa a pensar na entrada na CdM: “O melhor é contratar o Ronaldo para andar connosco. Assim já ninguém vem ter comigo”, sugere Sobral.

No percurso, há muitos beijinhos e abraços. E o primeiro contacto com a realidade portuense: “Salvador, tu estás no Porto, podes dizer as cara****** que quiseres!”, atira uma senhora. O episódio seria recordado no concerto, com o público a concordar em uníssono. “Salvador, dá um peidinho, bro”, diz, ao longe, um skater, numa alusão ao episódio no concerto solidário Juntos por Todos que marcou as últimas semanas de discussão em torno de Sobral.

No camarim há ainda tempo, enquanto os músicos trocam de roupa, para receber mais um presente de uma fã: uma caixa com um livro de John Steinbeck, umas andorinhas para decoração, um fio, uma carta e uma vela. Chega a hora. Antes de a porta que dá acesso ao palco se abrir, um abraço de grupo.

Rapidamente se percebe que no Porto o público é diferente. Muitas ovações em pé, gargalhadas com as tiradas do artista, muitas exclamações em voz alta. “Porra, pá! Isto é lindíssimo! Há aqui gente a chorar!”, grita alguém. A segurança tem de estar sempre atenta às pessoas que saem dos seus lugares para se colocarem em frente ao palco.

De resto, é essa a primeira coisa que Salvador diz quando regressa ao camarim: “Grande público, fogo!”. E se o cantor considerou o segundo concerto do CCB em Lisboa como, provavelmente, um dos melhores do conjunto, Rosinha diz que este, no Porto, “foi melhor do que os de Lisboa”. A verdade é que o regresso à Casa da Música já está marcado para esta terça-feira.

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