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José Reis: “Mesmo quem manteve o emprego passou a ter medo”

José Reis: “Mesmo quem manteve o emprego passou a ter medo”

José Reis, do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, em entrevista sobre os novos dados do INE relativos ao orçamento das famílias.

José Reis, professor catedrático de Economia, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, diz que em momentos de crise, como a vivida nos últimos anos, as famílias tendem a ajustar mais em gastos como lazer e cultura e menos na habitação, por exemplo. Está preocupado com o arrendamento e com uma possível nova bolha imobiliária, sobretudo nos centros urbanos. O tema em discussão são os resultados do mais recente Inquérito às Despesas das Famílias 2015/2016, do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgado esta segunda-feira.

As famílias portuguesas terão cortado em cultura, lazer, férias para conseguir aguentar a casa, os consumos domésticos, o custo com a educação?

Parece-me razoável admiti-lo. Na última década, mas sobretudo nos últimos cinco anos, marcados pelo duro ajustamento do anterior governo e da troika, podemos dizer que a maioria das famílias passou um mau bocado. O desemprego subiu e as expectativas das pessoas caíram a pique. Mesmo quem conservou o emprego, passou a ter medo. Ora, isto gera uma enorme pressão sobre as decisões de consumo. Há o lado monetário, do rendimento em termos absolutos, que passou a ser menor ou que estagnou em termos médios. Mas há essa dimensão de adiar ou evitar gastar não vá a situação do país agravar-se. Vivemos os últimos anos com essa sombra a pairar sobre nós.

E é mais fácil cortar nas férias e no lazer.

Claro. Tem a ver com as elasticidades dos consumos. Os custos relacionados com a habitação e a alimentação são sempre muito mais rígidos do que, por exemplo, a despesa em lazer. Sempre que há constrangimentos, as pessoas tendem a compensar dessa forma. Há efeitos de substituição, sim.

O INE dá-nos médias para os vários tipos de despesa realizada, mas sabemos que a crise afetou de forma diferente as pessoas. A quase estagnação da despesa anual média das famílias pode estar a refletir o quê?

Sabemos que as desigualdades aumentaram e não podemos deixar de ler estes dados sem ter isso em mente. Se não para termos uma atitude crítica, pelo menos para termos uma capacidade interpretativa melhor devemos ter em mente que durante a crise os mais ricos praticamente não terão sido afetados desse modo: ter de escolher entre gastar em lazer e em habitação. Como sabe, os sinais de ostentação �� lembro-me dos automóveis topo de gama, que não sentiram a crise (risos) – continuaram apesar do ajustamento infligido sobre a maioria da sociedade portuguesa.

Por exemplo, de 2011 para agora a despesa total média estagna, mas o custo com a habitação sobe uns expressivos 39%. Há aqui alguma pressão inflacionista, um desfasamento deste mercado face à realidade desses anos do ajustamento?

Pode haver, sim. Quando olhamos para o que está a acontecer aos centros urbanos percebemos que deixou de haver mercado de arrendamento a preços normais, ou compatíveis com o rendimento das famílias. A eletricidade em Portugal também é das mais caras da Europa. As empresas queixam-se, as famílias queixam-se. Todos sabemos que os salários de pessoas como António Mexia e outros saem dos nossos bolsos por via deste modelo rentista que ninguém consegue ou não quer combater.

Acha que há uma bolha na habitação?

Temo que sim. Diferente da que aconteceu no passado que teve a ver com crédito hipotecário e que acabou por dar nisto em estamos agora. Bancos parados a tentarem livrar-se de quantidades enormes de malparado, não se sabe bem como. Se houve uma bolha, e julgo que ela se está a formar, terá a ver com os fundos imobiliários que estão a comprar largas fatias das nossas cidades, designadamente Lisboa.

Falava de desemprego. Hoje temos uma retoma com pouco emprego quando se compara com as retomas passadas. Isto propaga-se ao consumo?

Claro, serve de freio às expectativas. A grande mudança, talvez a mais terrível e profunda, que aconteceu em Portugal tem a ver com a ascensão da cultura da desvalorização do trabalho. O INE também mostra isso noutros estudos que faz. Hoje a cultura que está instalada é de quanto mais barato melhor, é termos licenciados a viverem perpetuamente em situações precárias, a servirem no sector do turismo, a trabalharem à borla na esperança de poderem vir a ter um salário miserável, a saltarem de part time em part time. Esta desvalorização do trabalho, que é um sinal claro de que se está a investir pouco ou nada em capital humano, vai ter um preço muito alto para a nossa economia se não for invertida.

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