24.sapo.ptManuel Cardoso - 17 jul 14:55

Há poucas drogas nos festivais de verão

Há poucas drogas nos festivais de verão

Estava sintonizado na SIC Notícias, na quinta-feira, quando foi transmitido um “Opinião Pública” sobre “a moda dos festivais”. É enternecedora a infantilidade com que ainda se lida com estes eventos. A moda dos festivais! Sim, a moda dos anos 60. Ou da Idade Média. Ou da Grécia Antiga. Vá, em Portugal pelo menos desde o final dos 90s, sendo que já o primeiro Vilar de Mouros foi em 1971. Mas ainda são uma novidade, um fenómeno estranhíssimo de explicar, uma provável celebração da devassa, do libertinismo e do pecado. Ou não.

Como sabemos, um dos problemas dos formatos de opinião pública é a sua duração. É exigida aos ouvintes uma enorme capacidade de síntese para que consigam encaixar em 30 segundos todas as barbaridades que desejam difundir. No entanto, no programa em questão, muitos não desiludiram e conseguiram insurgir-se contra esta tendência absolutamente inovadora de jovens que se aglomeram em eventos de grande dimensão, recorrendo a um total desfasamento da realidade. Naquele clássico “confronto geracional”, alguns baby boomers ligaram, furiosos, alegando que os “festivais é só drogas”. Lamento desiludir-vos, caros idosos. Atualmente, os festivais carecem, em boa verdade, de procura de drogas. Nós, “os jovens de hoje em dia”, somos uns pussies.

No dia em que assisti ao programa, frequentei o Super Bock Super Rock e as estatísticas são claras: nenhum indivíduo me pediu uma mortalha. Nenhum! Nem uma king size para a amostra. Deparei-me ainda com um desvanecimento claro da nuvem de haxixe e havia mais fashionistas do que carochas. Sim, passámos dos comportamentos de risco para os comportamentos de riscas. Alguns destes “jovens de hoje em dia”, metralhados na escola com uma lavagem cerebral sobre os malefícios da droga, nem enrolar uma sabem. Mais, são produto de um enquadramento legal que não trata o consumidor como criminoso! Vi jovens que se recusam a utilizar o telemóvel para esticar um risco de coca e usam-no, imagine-se, para alimentar as redes sociais. Vi jovens para quem MD significa Medicinæ Doctor e cujo único ácido que alguma vez meteram na boca foi um Fini Bom de Coca-cola. Vi jovens que chegam ao festival e que se dirigem de imediato para as praças de alimentação! Nutrem-se, os gandins! Vi jovens que se indignam com a impossibilidade de levar garrafas de água para o interior do recinto, assumindo-se assim como entusiastas da fútil hidratação! Geração perdida! Geração perdida! Geração perdida, mas só quando o GPS do Uber que os leva em segurança a casa falha.

Sejamos sérios, não que é que a nossa geração não entre em excessos, mas os festivais do presente são tudo menos um antro de deboche. Hoje em dia, frequentar um festival de verão é menos radical do que ir ao baile da aldeia. Convenhamos que acumular 1000 brindes e participar em ativações de marcas não é propriamente a definição de contracultura. Não há nada de edgy em largar 100 paus para pôr uma pulseira no pulso que dá direito a assistir a concertos de bandas consensuais e a pagar um conto por uns três goles de cerveja. Hoje em dia rebelde, rebelde, é ficar em casa.

Recomendações:

Estreia, nesta sexta-feira, o novo filme de Christopher Nolan, Dunkirk.

Organizar de imediato um debate entre André Ventura e Ricardo Quaresma.

Deixar de acompanhar o Tour de France e passar a seguir passo a passo a “Volta a Portugal do Beto Lisboeta”. Depois de uma emotiva etapa do Alive, seguiu-se um mais tranquilo Super Bock, acompanhemos com atenção o percurso Vila Nova de Milfontes – Vilamoura – Praia Grande.

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