www.publico.ptDomingos Lopes - 17 jul 07:35

O colapso

O colapso

Era este o país que colapsava. O país que Passos e Cristas queriam que não saísse dessa estrada do empobrecimento.

No debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República, no preciso momento em que Coelho, Montenegro, Cristas e Telmo anunciavam o colapso da Estado, tudo em Portugal funcionava normalmente. Sem exagero, o debate enchia o país mediático e esvaziava-se nas ruas.

Nesse dia, ao contrário do que sucedia há três anos, os portugueses levantaram-se sem se interrogarem a si próprios e aos concidadãos acerca dos cortes nos rendimentos que o governo iria fazer para os empobrecer; qual seria o aumento das taxas moderadoras; quais seriam as escolas que fechariam assim como os centros de saúde; quanto aumentaria o IMI; quantos bens públicos passariam para os donos disto tudo; quanto aumentariam as portagens e os transportes públicos; quanto seria o corte nas pensões e no Serviço Nacional Saúde; quantos tribunais fechariam; e quanto aumentariam as custas judiciais; quanto tempo teriam de esperar os advogados do Apoio Judiciário pelos honorários; quantos enfermeiros emigrariam; quantos portugueses teriam de se alimentar na sopa dos pobres; quantas crianças iriam para a escola sem comer porque os pais estavam no desemprego.

O Estado tinha colapsado — em vez de garantir a coesão social, favorecia o empobrecimento e o enriquecimento da meia dúzia de tubarões. Em vez de proteger os mais vulneráveis, apadrinhava os super-ricos para se tornarem mais ricos e os carentes mais carentes. Tirando a quatro milhões de portugueses umas dezenas ou centenas de euros, entregando-os aos que criaram e fomentaram a crise, empobreciam a maioria e enriqueceriam os bilionários e assim, nesta ordem de ideias, se reestabelecia a normalidade e a pobreza de Portugal torná-lo-ia um dos mais competitivos do mundo.

Este era o sonho cor-de-rosa de Coelho, Portas, Montenegro, Maria Luís, Vitor Gaspar, Marco António e tutti quanti se empenharam no empobrecimento do país. O que a coligação Portugal À Frente levou a cabo foi um verdadeiro Portugal para trás, para níveis de vida de décadas atrás, tudo com pompa e circunstância.

Havia no acordar dos portugueses uma espécie de angústia porque de cima do altar do poder, o sumo pontífice anunciava todas estas medidas como punição. Quando os banqueiros e os seus políticos do arco do governo mandaram gastar, os portugueses, como é bom de ver, nem sequer precisavam que lhes dissessem.

Porém, vinham agora os do poder brandir a espada da punição por acreditarem no que lhes anunciaram e lhes ofereceram à mão de semear: créditos à habitação, para compra de carro, pessoais, para férias, para comprar tudo e um queijo da serra. Para além da vontade de cada um, o sistema financeiro cativava os portugueses até ao dia em que Coelho, Portas, Maria Luís os quiseram punir por terem acreditado no que lhes tinham prometido. O que interessava era o sistema financeiro.

Quando acordavam há dois ou três anos atrás tinham um sabor a fel na alma porque pertenciam a um país, a uma pátria, cujos governantes, como o tal senhor ministro holandês, os tratavam mal e os mandavam para longe.

Eram as depressões, a pobreza, o desemprego a crescer, as desesperanças a grassar. E ao mandarem-nos para fora bajulavam os ricos de fora para tomar conta disto, viessem de onde viessem; o que contava é que tomassem conta de tudo o que dava lucro.

Havia como que uma cativação geral da alma e da carteira do país. Todos estavam cativos dos governantes e dos senhores que mandam na União Europeia. Portugal tinha cá um Estado-maior da imperatriz Merkel.

Quem cá ficou, ficou mal. E os que partiram, mal ficaram porque longe do país que deles precisava e onde gostavam de ficar.

Como já não têm nada para prometer vivem como os cucos. Sem vergonha, prometem o que espezinharam. Basta-lhes uma desgraça para ganharem fôlego. Basta-lhes umas dezenas de armas desaparecidas, não se sabe em que circunstâncias, para se animarem.

Porém, ao levantarem-se, cada dia, destes últimos dois anos, os portugueses pensam em viver melhor, em recuperar rendimentos, em lutarem com esperança contra o que está mal. Sem aquela praga da punição que lhes azedava a alma.

No dia do debate do Estado da Nação, quem não ouvisse as notícias percorreria o seu quotidiano com a esperança que perdura, ténue seguramente, mas esperança. Os cucos vieram depois da primavera se ter ido e aguardam novas desgraças. Os portugueses agarram-se à esperança, mesmo ténue. Entre a punição e a esperança preferem a última.

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