www.jn.ptCarlos Oliveira Santos - 18 jul 00:00

Os livros de Américo Amorim

Os livros de Américo Amorim

Morreu uma enorme figura da vida portuguesa e, como sempre acontece nestas ocasiões, aparecem uns quantos a botar palavras rápidas e ligeiras, perante tal grandeza. Entre as que mais senti como tal, estão as que referiram Américo Amorim como pessoa que "não gostava de ler nem de escrever". Não pode haver, sobre ele, nada mais inexacto. Amorim nunca quis ser, de facto - num país onde eles abundam, muitas vezes, para nossa desgraça -, um literato ou um palrador. As suas leituras e palavras estavam subordinadas, sempre, ao sentido estratégico e interventivo que desejava dar à sua vida, mas a escrita e, sobretudo, a leitura eram-lhe essenciais. Não só o fazia, como o recomendava aos amigos e colaboradores. Todos se lembram dos livros, como a "Perestroika" de Mikhail Gorbachev, que ele mandou distribuir às centenas.

A par disso, quando atingiu os 60 anos, fez questão de deixar publicada, em livro, a história empresarial da sua família, onde ele teve um papel supremo. Uma amiga, a gestora Vera Nobre da Costa, recomendou-lhe o meu nome e eu, já professor do Ensino Superior, lá recebi um telefonema de Américo Amorim, para tal empreitada, que abracei com o maior gosto. Recomendei-lhe, contudo, um livro que, para além de uma cuidada narrativa e sem perder a dimensão pessoal dos diversos intervenientes, fosse bem fundamentado na contextualização histórica do respetivo período. Assim se fez. Amorim tinha, aliás, um experiente lugar-tenente, Eduardo Correia, muito conhecedor das artes da edição, e o design gráfico foi entregue a um grande criador do Porto, João Machado. Em 1997, foi com o maior orgulho que Américo Amorim passou a distribuir o "seu" livro, em dois magníficos volumes.

Voltámos a encontrar-nos, já neste século, quando a indústria dos plásticos muito atacou a cortiça, sobretudo nos países anglo-saxónicos. Havia que fazer uma edição internacional de uma história comparada da cortiça e do vinho, traduzi-la em várias línguas (acabou por sê-lo em seis, incluindo russo e mandarim) e afirmá-la pelo Mundo. Não nos poupámos a esforços. Ele e eu, que corri as caves do British Museum, plenas de ânforas rolhadas, mergulhei no Mediterrâneo, donde algumas seriam extraídas, estudei os tesouros do Museu Martini, perto de Turim, corri Roma, Paris, a região de Champagne, onde constava (o que não é verdade) que Dom Pérignon tinha inventado o uso de rolhas em garrafas de vidro moderno. Isso deu um livro enorme, cheio de material inédito, com o título "Clusters unidos pela natureza" (sugerido por Américo Amorim), editado em 2008 e ainda hoje solicitado como referência, numa altura em que a rolha de cortiça reganhou o seu prestígio mundial.

Voltámos a livros, logo a seguir, com o seu interesse numa história da Herdade do Peral, comprada a Jorge de Mello e motivo de uma anedota, que Filomena Mónica divulgou, referindo-se a uma conversa entre os dois, mas que Américo Amorim me disse nunca ter existido. O Peral revelou-se, isso sim, uma mancha intensa de história, que remontava, mesmo, ao Paleolítico. Tudo isso - muito graças às investigações feitas durante a preparação das obras do Alqueva -, ficou expresso num novo livro, publicado em 2011, o mesmo ano em que se publicou uma história da Galp Energia, que ele também despoletou, quando tomou as rédeas da empresa, e que, igualmente, me caberia pesquisar e escrever.

Curiosamente, quando se aproximavam os 60 anos de trabalho de Américo Amorim, Eduardo Correia aceitou uma sugestão minha, logo apoiada pelo seu sobrinho, António Rios de Amorim, para que todos os colaboradores se juntassem e lhe oferecessem um livro com frases das mensagens que ele, todos os anos, enviava aos próprios colaboradores. Nasceu o lindo livro "Mensagens", em 2012, que reúne o essencial do que guiou a sua intervenção e fica, hoje, como importantíssimo manual da sua existência e da sua atitude empresarial.

Meu bom amigo, que haveis feito deste professor universitário um escritor de livros empresariais: agora, parece que nunca mais editaremos livros juntos, mas, seguramente, muitos, ainda, se escreverão com o seu nome e a sua obra bem inscritos.

* PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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