ionline.sapo.ptAlexandra Duarte - 17 jul 11:53

Da fome ao desperdício

Da fome ao desperdício

O desperdício alimentar é um problema mundial se considerarmos o crescimento da população, com um aumento previsto de 7 mil milhões para 9 mil milhões até 2050

Em pleno século xxi, parece-me muito trabalhoso fazer o caminho para o cumprimento dos Objetivos do Milénio no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável no nosso planeta, já que continuamos a assistir a um acumular de problemas que muitas vezes nos fazem reconhecer que o mundo está doente... e, com ele, todos nós. Cada dia que passa, aproximamo-nos de uma obrigação que já não conseguiremos evitar: a de sermos mais ativos e participativos na procura de antídotos para debelar tal doença. Por mais alertas que sejam feitos, fundamentados em relatórios emitidos por organizações e instituições internacionalmente reputadas, da mais variada ordem (ONU, universidades, empresas multinacionais que patrocinam investigações, etc.), é imperativo passar do diagnóstico à concretização de propostas de caráter sobretudo social e ambiental.

Os sintomas são inúmeros, começando pelas questões ambientais até chegarmos às questões sociais mais delicadas, que põem em causa toda a sobrevivência da nossa espécie tal como a conhecemos. Por mais relatórios que sejam feitos, as conclusões nunca são animadoras numa perspetiva futura. As tendências agravam-se sem que a esperança faça o seu caminho, sendo este ocupado por números pessimistas e pouco animadores. Ainda assim, persistimos e vamos seguindo em frente, às vezes com aquele sentimento de que não estamos a fazer o possível para inverter a situação e, muitas vezes, quase completamente derrotados pela desorientação. 

Ainda esta semana fomos confrontados com a notícia de que o maior iceberg se separou da calota polar antártica, confirmando as piores estimativas feitas há vários anos, com todas as consequências para o futuro do ecossistema.
Em fevereiro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) divulgou um relatório com projeções alarmantes sobre a fome na região do Corno de África (Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti), no Iémen e na Nigéria. Perto de 20 milhões de africanos vivem em zonas fustigadas pela seca severa, que dizima colheitas inteiras, deixando à sua sorte populações em situação de carência absoluta de alimentos. A seca não só afeta as colheitas como as zonas de pasto, provocando a morte dos animais e, consequentemente, inflacionando o preço do leite para valores fatais. E, como se não bastasse, o conflito armado miliciano aterroriza aqueles que, no seu dia-a-dia, lutam para ter alimentos para os seus filhos, sem que a natureza seja complacente com as suas dificuldades. Os relatos que nos vão chegando de missionários e de ONG sobre o que por ali se passa, sem que a comunidade internacional assuma uma posição mais crítica e condenatória sobre os massacres, fazem-nos pensar que grupos organizados como o Boko Haram não irão dar descanso a estes mártires.

Mas a fome altera-se consoante a latitude e a longitude. E os números mais a norte, nomeadamente na Europa, assumem outras dimensões. Por aqui fala-se em desperdício alimentar e, em 2015, as Nações Unidas, através da sua Assembleia-Geral, e, mais tarde, o G-20 definiram metas para reduzir para metade o desperdício dos alimentos. Anualmente, na União Europeia desperdiçam-se 100 milhões de toneladas de alimentos, já havendo estimativas que apontam para um desperdício de 126 milhões de toneladas em 2020. Um terço de todos os alimentos produzidos na Europa são desperdiçados.

O desperdício alimentar é um problema mundial se considerarmos o crescimento da população, com um aumento previsto de 7 mil milhões para 9 mil milhões até 2050. Se esta previsão estiver correta, serão necessários cerca de três planetas Terra para que tenhamos os recursos naturais necessários para mantermos os atuais gastos que fazemos. Se, no entanto, não alterarmos o nosso trajeto e mantivermos as práticas de hoje, o planeta poderá perder todo o seu solo fértil em apenas 60 anos, com a contaminação do solo e a sua erosão, a perda da biodiversidade e o consumo excessivo de água. A verdade é que não temos tido a capacidade de inverter a exploração dos recursos naturais e, a esta velocidade, rapidamente esgotaremos as reservas ainda existentes – não obstante, recentemente, terem surgido teorias que fazem o contraditório do esgotamento dos recursos naturais, aludindo à sua regeneração natural. Ainda são teorias, porque a observação tem comprovado o contrário. 

Em Portugal, desperdiçamos anualmente cerca de um milhão de toneladas de alimentos, sendo 324 mil toneladas devidas exclusivamente a desperdício doméstico.
A boa notícia é que, por cá, estamos na frente do pelotão nestas matérias, pelo menos enquanto preocupação que passou a fazer parte da agenda política, designadamente em Lisboa, com a criação do Comissariado Municipal do Combate ao Desperdício Alimentar, responsável pelo resgate de cerca de 5 milhões de refeições por ano, distribuídas posteriormente por famílias que tenham esta necessidade. Estes são os números da esperança e que nos fazem pensar que exemplos destes chegarão a todos os cantos do mundo e que o mundo voltará a ficar saudável.

Escreve quinzenalmente à segunda-feira

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