www.dn.ptWolfgang Münchau - 17 jul 01:00

A Europa E Os Outros - Três medidas que a UE pode tomar para mostrar liderança global

A Europa E Os Outros - Três medidas que a UE pode tomar para mostrar liderança global

Angela Merkel foi a primeira pessoa a descartar as sugestões de que está prestes a tornar-se líder do mundo ocidental. É difícil dizer se isso é sinal de falsa modéstia ou de puro realismo, mas a afirmação é correta. Por mais irritado que se possa estar com o comportamento do presidente dos EUA Donald Trump ou com o brexit, seria um terrível engano tirar conclusões precipitadas sobre mudanças no poder geopolítico. Tal como as conspirações, elas acontecem de vez em quando, mas são muito raras.

Houve muita euforia pela Europa após a eleição de Emmanuel Macron como presidente de França. A zona euro está a passar pelo que parece ser uma recuperação cíclica generalizada, a primeira desde o início da crise financeira há dez anos. Existe uma boa vontade política global em relação à UE em geral e a políticos como o Sr. Macron e a Sra. Merkel em particular. Seria realmente um bom momento para a UE adotar um papel de liderança geopolítica. Esta está disponível. Mas, para que isso aconteça, a UE teria de fazer três coisas de forma diferente. As hipóteses de isso acontecer são zero.

A primeira e mais importante é os países da UE deixarem de manter os grandes e persistentes excedentes das balanças de transações correntes. Esqueçamos o excedente alemão. É o excedente da zona euro que importa, do qual naturalmente faz parte o excedente alemão. O excedente da balança corrente da zona euro foi de 3,4% do produto interno bruto no ano passado.

Os políticos e economistas europeus tendem a ter uma perspetiva cingida ao país. O objetivo declarado é que os seus próprios países se tornem mais competitivos. Não têm a mentalidade de uma potência global. Provavelmente, o maior desapontamento de quase 20 anos de união monetária é não ter conseguido afastar-se dessa maneira de pensar. Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia, observou uma vez que a UE consiste em dois tipos de Estados membros: países pequenos que sabem que são pequenos e aqueles que não o sabem. Eles acabarão por ter de superar isso.

A zona euro é indiscutivelmente grande, é a segunda maior economia do mundo. O que ela faz é importante para o resto do mundo. Mas, ao contrário dos americanos, os europeus não estão habituados a pensar nas consequências internacionais das suas ações. Aqueles que criticam a retórica "America Primeiro" do Sr. Trump devem perceber que os países da UE têm feito exatamente o mesmo desde sempre.

A segunda medida é pôr fim às crises rotativas da zona euro. Vários Estados membros têm níveis insustentáveis de dívida. Os sistemas bancários ainda estão debilitados. Os dese- quilíbrios dentro da zona euro estão próximos de um recorde histórico, como é evidente, entre outras coisas, pelos excedentes crescentes da Alemanha no sistema de pagamento Target 2 do Banco Central Europeu. A recuperação cíclica não solucionará nenhum desses problemas. A realidade de um ciclo económico não qualifica ninguém para a posição de superpotência económica.

Será que Emmanuel Macron e Angela Merkel conseguirão reiniciar o sistema de governação da zona euro? O que me chega da Alemanha é que ela está de facto disposta a começar a trabalhar com Macron. Mas a Alemanha vê uma união orçamental principalmente como um veículo para impor mais austeridade. Divirtam-se!

A terceira área que necessita de atenção é a persistente recusa da UE em aumentar os gastos com a defesa. A Alemanha, em particular, não irá cumprir a sua promessa de um aumento das despesas de defesa para 2% do PIB, pois a política interna tem ido na direção oposta. No seu importante discurso em Munique recentemente, a Sra. Merkel pediu que a UE se tornasse menos dependente dos EUA. Mas ela não disse que isso exigiria um aumento nas despesas de defesa para muito mais do que os 2% do PIB do compromisso com a NATO.

Todos os três pontos têm em comum que a perspetiva natural da UE é voltada para o interior. Mesmo que consideremos a visão mais otimista sobre uma agenda franco-alemã revigorada, não devemos inferir automaticamente que a UE está disposta e pronta a assumir um papel de liderança global. Nenhum dos dois líderes começou sequer a preparar os seus eleitores para as mudanças que são necessárias na política interna.

Embora os alemães geralmente concordem com a sugestão de Merkel de que a UE deveria ser autossuficiente, eles não concordariam com uma única das medidas que seriam necessárias para conseguir isso - na defesa, na obsessão com os excedentes orçamentais e na transferência de soberania.

De todos os países da UE, a França provavelmente está mais pronta do que outros na área da defesa, mas, quando se trata de comércio livre, pode tornar-se difícil encontrar diferenças objetivas entre Donald Trump e Emmanuel Macron.

Uma das muitas lições da crise da zona euro é que os vazios de liderança não são necessariamente preenchidos, porque a liderança não é um jogo de soma zero. O resultado mais provável de uma retirada americana da liderança global é, de longe, simplesmente menos liderança global.

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