ionline.sapo.ptTiago Mota Saraiva - 17 jul 11:51

E se não for só na esquadra de Alfragide?

E se não for só na esquadra de Alfragide?

A 5 de fevereiro de 2015, o i fazia eco de uma notícia da Lusa sob o título “Grupo tenta invadir esquadra após detenção de jovem no concelho da Amadora”.

O subcomissário Abreu, porta-voz do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, afirmava que uma carrinha que patrulhava o bairro da Cova da Moura fora atingida por uma pedra atirada por um jovem de um grupo de cerca de dez pessoas. Noticiava-se que um agente teria ferimentos e que, na sequência da detenção, os restantes jovens “tentaram invadir” a esquadra. Miguel Curado da CMTV, à porta da esquadra, noticiava uma “chuva de pedras” e uma invasão para “libertar o detido”. Na sua narrativa lembrava que estes ataques eram normais pela proximidade do Bairro da Cova da Moura.

Hoje sabemos que estas notícias eram falsas e, a confirmar-se o teor da acusação do Ministério Público, à mesma hora a que eram publicadas havia cidadãos a serem espancados naquela esquadra. Todos os agentes da esquadra de Alfragide estão acusados pelo Ministério Público. Estão em causa crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física, agravados pelo crime de ódio e discriminação racial.

Este “todos” é demasiado cheio e preocupante. O “todos” da acusação termina na esquadra e, mesmo mantendo a presunção de inocência dos visados, já podemos concluir que houve um “todos” da cadeia de comando da PSP, do IGAI ou do INEM que corroborou mentiras. Este silêncio que oscila entre o corporativismo e um racismo subterrâneo tem vindo a encontrar terreno fértil numa parte significativa das instituições públicas da Amadora. O município, que ridiculariza o conceito de Cidade Intercultural ao ter sido aceite pelo Conselho da Europa enquanto tal, tem vindo a ser o ponta-de-lança destes silêncios sempre que legitima o uso da força dentro de bairros como o 6 de Maio ou a Cova da Moura,

justificando-a com a resistência dos moradores.
Na verdade, o que é politicamente mais preocupante é que ninguém nos garante que os factos de que são acusados os agentes da esquadra de Alfragide não possam suceder noutras esquadras do país e não contem com a mesma hierarquia de silêncios. 

Escreve à segunda-feira

1
1