www.jn.ptRafael Barbosa* - 17 jul 00:01

Virar a casaca

Virar a casaca

Vamos fazer de conta que estamos em julho de 2015. É ainda a coligação entre PSD e CDS quem governa, faltam alguns meses para as eleições. Há vários bancos que ameaçam implodir, incluindo a CGD, a arder em milhares de milhões de euros de empréstimos concedidos a um vasto conjunto de vigaristas. Acrescentemos aos factos um pequeno delírio (à época): os deputados do PSD e do CDS avançam com uma comissão de inquérito que, entre outras coisas, pretende obter uma listagem desses negócios ruinosos, com informação detalhada sobre quem os recebeu, quem foram os gestores que decidiram dar-lhes crédito e com base em que critérios. E, finalmente, que os deputados do PS, do BE e do PCP, sem vontade de prolongar os trabalhos da comissão - seja porque estão a precisar de férias, seja porque estão mais preocupados com as eleições que se aproximam -, prescindem dessa documentação e dão a investigação por concluída. A Direita agradece, a comissão produz umas quantas conclusões entre o inócuo, o desinformado e convicções avulsas, e vai toda a gente a banhos. É difícil de imaginar? É natural, porque de facto não aconteceu. Pelo menos, não em 2015.

O que mudou, em dois anos, para que a Direita proponha agora o que então acharia impensável? O que mudou, em dois anos, para que a Esquerda rejeite agora o que então receberia de braços abertos? O leitor já lá terá chegado, mas a narrativa exige uma conclusão: houve eleições e o poder mudou de mãos. Tão simples quanto isso. Na verdade, o Governo e quem o suporta continua a fazer os possíveis para impedir o escrutínio do banco público, enquanto a Oposição continua a fazer os possíveis para expor publicamente todos os pecados da CGD. Os partidos que estão no Governo e na Oposição é que já não são os mesmos. Podemos até dizer que há uma grande coerência em tudo isto: não há partido que não vire a casaca, sempre que está no poder ou partilha um pedaço desse poder. Mas isso não chega para tranquilizar ninguém. Porque há outras coisas que nunca mudam: são sempre os contribuintes a pagar; a fatura é sempre de milhares de milhões de euros; e nunca se encontram os responsáveis por coisa nenhuma. Começa a ser cansativo.

P.S.: O JN publicou ontem (domingo) uma entrevista a David Justino. Que volta a alertar para o problema da inflação de notas no Ensino Secundário e para as suas consequências, chegando ao ponto de afirmar que há uma espécie de "mercado da nota" em que se "paga por quem dá mais". Quando faltam poucos dias para o início do processo de candidatura ao Ensino Superior, o presidente do Conselho Nacional de Educação diz que o processo não é transparente, não é rigoroso, não é ético. Terá o Ministério da Educação alguma coisa a dizer sobre isto? Ou continuará a assobiar para o lado?

*EDITOR-EXECUTIVO

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