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Pedrógão - Marcelo e Costa, sintonizados, travam "interrogações"

Pedrógão - Marcelo e Costa, sintonizados, travam "interrogações"

Presidente da República e primeiro-ministro dizem que para já a prioridade é acudir às vítimas. Inquéritos sim, mas mais tarde

Fim da noite de sábado. Marcelo Rebelo de Sousa tinha acabado de chegar a casa, em Cascais, vindo do Porto. António Costa estava em Portalegre, num jantar partidário - depois de à tarde ter presidido em Lisboa a uma reunião do PS. Foi nesta altura que ambos se começaram a aperceber da real dimensão do que se estava a passar em Pedrógão Grande (distrito de Leira).
Informado pela sua assessoria, o Presidente da República decidiu, pouco depois de chegar a casa, meter-se de novo no carro e rumar a Pedrógão Grande; Costa, pelo seu lado, veio para Lisboa, como previsto, mas em vez de ir para casa dirigiu-se diretamente à sede da Proteção Civil, em Carnaxide.
Pelas 23.30 de sábado, junto ao comando das operações, em Pedrógão Grande, o secretário de Estado da Administração Interna já tinha anunciado o primeiro balanço de vítimas de um incêndio que deflagrara no concelho ao princípio da tarde. Um número impensável: 19 mortos, todos civis.
Ao chegar a Pedrógão, um abraço prolongado do Presidente ao secretário de Estado Jorge Gomes, desfeito em lágrimas. Marcelo procurou de imediato desarmadilhar conversas sobre falhas no combate ao fogo ou na atuação das autoridades: "O que se fez foi o máximo que se podia fazer" e "não era possível fazer mais, há situações que são situações imprevisíveis e quando ocorrem não há capacidade de prevenção que possa ocorrer, a capacidade de resposta tem sido indómita". "A palavra que quero deixar agora não é uma palavra de desânimo, é uma palavra de ânimo, de confiança, de conforto", dizia ainda, entre agradecimentos aos que combatiam o fogo e expressão de sentimentos às famílias.
O Presidente regressaria a Lisboa já com a madrugada bem avançada. Passou o domingo em Belém, recebeu mensagens de solidariedade de vários homólogos (de Espanha, Cabo Verde, Alemanha, Grécia, França e República Checa), falou com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, com António Guterres, secretário-geral da ONU, e, claro, com o primeiro-ministro.
Tratou também do adiamento da visita de dois dias a Portugal do presidente da Colômbia (que também quis ficar em Bogotá por causa de um atentado terrorista), visita que se iniciaria amanhã. Cancelou tudo o que tinha previsto para os próximos dias. Promulgou o decreto governamental determinando luto nacional por três dias. Ao fim da tarde, decidiu que tinha de fazer uma comunicação ao país, o que aconteceu pelas 20.30. A hora é "de dor, mas também de combate, de resistência, de ânimo renovado e redobrado". E de uma "ilimitada gratidão" e "incondicional apoio" para todos os que, de qualquer forma, estiveram envolvidos no combate ao fogo e em cuidar dos que sobreviveram, começando pelo "povo anónimo".
Marcelo reconhecia então que há "interrogações e sentimentos que não podem deixar de nos angustiar" - porque, além do mais, "a tragédia atingiu os portugueses de quem menos se fala, de um país rural, isolado, com populações dispersas, mais idosas, mais difíceis de contactar, de proteger e de salvar". Mas insistia em pedir "tréguas": "Guardemos no imediato estes sentimentos que legitimamente nos sobressaltam, inconformistas como somos, no mais fundo do coração." E fazia-o em nome da unidade nacional: "Nos instantes mais difíceis da nossa vida como nação, somos como um só - por Portugal." Hoje, o Presidente da República estará outra vez em Pedrógão Grande.
Mais ou menos à mesma hora que o Presidente chegava a Pedrógão (00.40 de domingo), o primeiro-ministro chegava também à sede da Proteção Civil, em Carnaxide, nos arredores de Lisboa (00.35).
Já informado do primeiro balanço, e sabendo que estava longe de ser definitivo, salientava o óbvio: "Infelizmente, esta é a seguramente a maior tragédia de vidas humanas de que temos conhecimento nos últimos anos em Portugal, em situação de incêndios florestais."
Também ele - como o Presidente da República - procurava definir o que era mais importante fazer no imediato: "A prioridade, neste momento, naturalmente, é controlar os incêndios que estão a ocorrer, procurar que não haja novas vítimas" e "fazer o levantamento das vítimas já existente". Quanto a "apurar o que é que aconteceu" será "obviamente feito", mas "a seu tempo".
Ao final da manhã de ontem, o primeiro-ministro partiria de Lisboa para Pedrógão. Passou todo o dia no concelho e noutros atingidos pelo fogo (Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Góis). Por vezes foi obrigado a parar - por exemplo em Ansião -, precisamente por causa das chamas. Aproveitou a reabertura do IC8, pelas 15.38 (a via esteve encerrada desde as 19.00 de sábado). Vários ministros foram para o terreno - Administração Interna, Agricultura, Saúde, Planeamento -, assim como a secretária de Estado da Segurança Social, Cláudia Joaquim.
Ao princípio da tarde, em Pedrógão, dizia que já tinha falado com todos os líderes dos partidos parlamentares, transmitindo-lhes a informação que tinha - e sugerindo que o tempo não é de conflito político: "Quero sublinhar o grande sentido de unidade nacional com que o país está a enfrentar esta tragédia, de que não temos felizmente memória e para a qual temos de estar à altura de saber responder."
Ao mesmo tempo anunciava que seriam instalados no terreno quatro centros operacionais da Segurança Social (Pedrógão Grande, Avelar, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera), que os estudantes moradores na zona tinham os seus exames adiados.
Já em Góis, mais tarde, faria um apelo: que as populações acatem as recomendações de evacuação feitas pelas autoridades. "A maioria das pessoas que faleceram, e que já estão identificadas, não foram vítimas nos carros, foram vitimadas nas casas que não tiveram oportunidade de abandonar a tempo."
Pelas 23.00 de domingo, o balanço das vítimas foi atualizado: 62 mortos e 62 feridos.

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