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“Não sou crente, mas rezei. Todos rezámos. Não havia mais nada a fazer”. Os relatos do medo por quem o viveu

“Não sou crente, mas rezei. Todos rezámos. Não havia mais nada a fazer”. Os relatos do medo por quem o viveu

Maria de Fátima Nunes enfiou-se no carro com o marido e conseguiu escapar ao fogo, mesmo depois de ter o “lume agarrado ao cabelo e à roupa”. O casal que seguia no carro atrás não teve a mesma sorte. “Gritei à senhora para ela sair do carro, mas ela não saiu”. Hugo Manuel Almeida Santos pegou na sua família e abandonou a casa em chamas, que ficou feita em “cinza e carvão”. Gareth Roberts, um inglês a morar em Portugal, escondeu-se do fogo num anexo de uma casa. Deitou-se no chão, tentando respirar, e rezou pela vida – ele que diz não ser crente – até que o fogo foi finalmente embora. Eis os relatos de alguns dos sobreviventes do incêndio que deflagrou no sábado, em Pedógrão Grande, distrito de Leiria

“Um cenário de horror”, “um inferno autêntico”. É assim que Maria de Fátima Nunes, uma das sobreviventes do incêndio deste sábado em Pedrógão Grande, descreve os acontecimentos que viveu nas últimas horas, enquanto tentava escapar ao fogo. “Via-se ali o fim do mundo. Eu achava que não iria conseguir escapar dali. O lume agarrou-se ao cabelo e à roupa. Fiz de tudo para me livrar das chamas. Ninguém pode descrever o que a gente passou”.

Em entrevista à SIC Notícias, Maria de Fátima Nunes explicou que seguia de carro com o marido, no IC8 – estrada pela qual optou por seguir por não saber que esta “estava em perigo” – quando foi apanhada pelas chamas. “O meu marido queimou-se um bocadinho no braço. Eu queimei-me mais. O fogo apanhou-me pelo peito”. A sobrevivente descreve um cenário de horror e momentos de grande aflição enquanto seguia, com o marido, na estrada. “Haviam chamas em cima dos pinheiros e os pinheiros caíam em cima dos carros. O lume vinha de todo o lado, da frente, de trás, de todo o lado. Os carros batiam uns nos outros ao tentarem escapar”. O casal que seguia no carro atrás, conta, não conseguiu sobreviver. “Gritei à senhora para ela sair do carro, mas ela não saiu. O marido saiu, mas morreu mesmo ali”.

No momento em que foi entrevistada pela SIC Notícias, Maria de Fátima Nunes aguardava indicações para saber o que fazer com o carro em que ela e o marido seguiam e que ficou “totalmente queimado”. “Tudo o que tínhamos ficou lá dentro. Documentos, dinheiro, tudo.”

“Atirou-se a um poço, pobre senhora”

Horácio e Fátima também conseguiram escapar ao violento fogo que deglarou em Pedrógão Grande e que já fez, segundo o último balanço oficial, 62 vítimas mortais. Ao Expresso, na ponte à beira do IC8, mesmo à entrada de Avelar, Fátima contou que a rapidez dos acontecimentos – “foi uma questão de segundos e de repente havia fogo por todo o lado” – não lhe permitiu perceber o que estava exatamente a acontecer. “Saímos de casa e fomos para a rua principal”.

Fátima, que estava acompanhada pelo primo Horácio e pelas duas filhas, assim como por um casal de estrangeiros com o neto e um bebé de meses, foi transportada de ambulância e de jipe. Para trás, ficou o seu sogro de 92 anos, “que não quis sair de casa”. “Tivemos de vir embora, não podíamos ficar… Só consegui falar com o meu marido agora. Ele está bem.”

Salvou a família numa carrinha em fuga por entre as chamas

Também em Pedrógão Grande, Hugo Manuel Almeida Santos contou à Lusa que a casa em que vivia – em Figueira, mesmo junto ao IC8, na freguesia da Graça, no concelho de Pedrógão Grande – ficou totalmente ardida. “A casa ardeu toda, ficou tudo queimado, fiquei sem nada. Está tudo, mesmo tudo, desfeito em cinza e carvão”.

Hugo Santos diz que “ninguém sabe explicar” como é que conseguiu salvar-se, bem como à sua família – pai, mulher e filha, de 11 anos de idade. “As labaredas batiam muito forte na carrinha, ainda fui contra um pinheiro e andei por valetas. Temi pela vida de nós todos, pensei que ficávamos lá todos”, afirmou.

“Nunca, por nunca, vi uma coisa comparável a esta”, acrescentou Hugo Santos, que falava �� agência de notícias no Hospital de Avelar, no concelho de Ansião (distrito de Leiria), onde o pai, de 57 anos de idade e com “muito pouca mobilidade”, está internado, uma vez que não tem outro sítio para ir.

Adelaide, a mulher que salvou sete pessoas da morte

Em Nodeirinho, aldeia de 40 habitantes perto de Pedrógão Grande, Adelaide abriu as portas de sua casa – uma das mais recentes e mais bem preparadas para aguentar as chamas – salvou sete turistas da morte e ainda uma vizinha que perdeu o marido no fogo e que apareceu à sua porta, à meia-noite, “de gatas, de joelhos, toda queimada nas costas, na cara e nos braços”.

Uma das pessoas que se escondeu do fogo na casa desta viúva de 60 anos era enfermeira em Lisboa e disse que era preciso enrolar a mulher em toalhas molhadas. Adelaide foi buscar os panos, humedeceu-os na água do poço, enrolou-a, até que o socorro a levasse para o hospital. As crianças dormiam, mas os adultos não conseguiram fechar os olhos.

“Estou numa aldeia. O fogo está por todo o lado. É o fim”

Gareth Roberts, um inglês a morar em Portugal, voltava de umas férias no sul de Espanha e estava a cerca de uma hora da sua casa, na região Centro, quando foi obrigado pela polícia a abandonar o IC8, tal como outros carros que circulavam nessa estrada, e a dirigir-se para a aldeia de Mó Grande (Pedrógão Grande). “Apanhámos uma trovoada enquanto seguíamos pela estrada, mas quando as nuvens dissiparam vimos o fumo. O cenário parecia bastante mau. Mas não tínhamos ideia de quão terrível era até chegarmos mais perto”, relata à BBC Gareth Roberts, de 36 anos.

À medida que subiam a estrada municipal viam as chamas a passar de um lado ao outro da estrada. “O vento atirava ramos a arder contra o carro, mas não podíamos parar. Sentíamos o calor”. Os carros conseguiram chegar a Mó Grande, que já estava rodeada pelas chamas. O ambiente era de desespero total. “Os locais e nós chorávamos, esmagados pelo calor e pela velocidade do fogo. Estava escuro, tão escuro entre as chamas”. Gareth chegou a mandar um sms aos pais: “Estou numa aldeia. O fogo está por todo o lado. É o fim”.

Um homem gritou pelo grupo, chamando-os para um anexo à sua casa, onde estava menos calor e parecia fora da rota do fogo. Alguns foram, outros ficaram, outros ainda bateram �� porta mais tarde, sabendo que ali estava mais gente. Lá dentro, conta ainda à BBC, voltou a pegar no telemóvel para comunicar com os pais. Não havia rede. “A última coisa que lhes tinha dito era que ia morrer”.

E assim pensou Gareth durante mais algum tempo. “A luz foi abaixo, as chamas aumentavam, um tornado vermelho passou pela janela. Deitámo-nos no chão durante uma boa hora, a tentar respirar. Não tenho vergonha de dizer. Não sou crente mas rezei. Todos rezámos. Não havia mais nada a fazer”.

O fogo acabou por ir embora. Quando as pessoas que se abrigaram no anexo se levantaram só se via destruição à volta. “Por milagre, a nossa casa e a casa ao lado não tinha ardido”.

“Nossa Senhora de Fátima ajudou-nos”

Lídia Antunes, residente na aldeia de Vila Facaia, em Pedrógão Grande, contou ao jornal “Público” como conseguiu escapar ao fogo. Na aldeia das Várzeas, alguns quilómetros à frente, encontrou um cenário de terror. “Era cada vez mais lume. Não se via nada. Seguíamos a linha branca da estrada. Bati com o carro, mas ele voltou a andar. Nossa Senhora de Fátima ajudou-nos. Encontrei um casal, com o carro a arder, que me pedia ‘Socorro, Lídia, salva-nos’, e a porta do meu carro não abria. Mas, depois, lá abriu, eles entraram e seguimos não sei como. Não se via nada, meu Deus. Mas lá fomos ter a Castanheira [de Pera], sem saber nada da minha família”.

A filha, Dulce, de 24 anos, que tinha seguido para o interior da aldeia, viu a sua fuga ser travadas pelas chamas, tendo sido obrigada a regressar, com a avó e os dois sobrinhos com quem estava, a Vila Facaia, onde passou grande parte da noite junto a um tanque. “Voltei para trás e foi a minha sorte”, disse a mulher ao jornal.

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