rr.sapo.ptrr.sapo.pt - 7 mar 07:17

Escritores portugueses vão à escola em Macau

Escritores portugueses vão à escola em Macau

"No Sri Lanka achavam que os portugueses comiam pedras e bebiam sangue", conta a autora de "A Casa-Comboio". Raquel Ochoa e João Morgado vão responder às perguntas dos alunos da Escola Portuguesa de Macau.

É uma manhã diferente para cerca de 60 estudantes da Escola Portuguesa de Macau. Esta terça-feira, receberam a visita dos escritores Raquel Ochoa e João Morgado, dois autores participantes no Festival Literário de Macau – Rota das Letras.

De fardas desportivas azuis, brancas e amarelas, os alunos levantaram de imediato os braços quando lhes perguntaram se queriam fazer perguntas aos escritores.

No palco, Raquel Ochoa e João Morgado já tinham falado dos seus livros e das suas aventuras de viagem. Morgado, autor do livro "Vera Cruz" sobre Pedro Alvares Cabral tinha mesmo desafiado os alunos a imaginarem como eram as viagens na época dos descobrimentos.

"Antes, os portugueses levavam muitos meses a cá chegar" em naus que não seriam maiores do que o auditório da Escola Portuguesa de Macau.

"Eram audaciosos" conclui Morgado, que compara as viagens de então às dos dias de hoje.

Raquel Ochoa, autora de livro "A Casa-Comboio", está há quatro meses em viagem pelo Oriente e regressou agora do Japão. Tem escrito literatura de viagens e lembra como os encontros de culturas nem sempre foram fáceis.

"No Sri Lanka, achavam que os portugueses comiam pedras e bebiam sangue", contou. Perante as caras intrigadas dos alunos, a escritora explicou que essas "pedras" eram o pão rijo que ia a bordo das naus e o "sangue", o vinho que levavam então.

Foram estas histórias que levaram os alunos a quererem fazer mais perguntas aos autores. Da plateia vieram mais de dez. Queriam saber qual o país que mais tinham gostado de conhecer, onde mais de sentiram em casa, para onde querem viajar, mas também o que irão levar de Macau para incluir nos seus livros.

João Morgado, autor de "Índias", o livro sobre Vasco da Gama, já tinha aberto o apetite ao revelar aos estudantes que estava a escrever sobre uma nova personagem histórica que tinha estado em Macau. Mas não quis dar mais pormenores.

O autor diz que tem de ler para cima de 50 livros para escrever um e considera que “a literatura é reciclagem”.

“Vamos absorvendo uma quantidade de coisas que vamos guardando na memória, às vezes até de uma forma desordenada, mas depois quando estamos na fase criativa, na fase da escrita, vamos ao sótão da memória encontrar coisas que já nos tínhamos esquecido", explicou.

Raquel Ochoa teve resposta diferente à questão “o que vão levar de Macau para a o vosso trabalho”. A escritora tem andado de cabeça no ar a olhar a nova arquitectura de Macau, onde nascem a um ritmo vertiginoso novos hotéis. Alguns imitam a arquitectura de cidades europeias como Veneza e Paris.

"Neste momento apetece-me muito escrever sobre os sítios, como eles estão a viver a sua história agora”, revelou a autora. “É nisso que estou mais focada aqui em Macau. Tenho feito incursões quando posso e estou fascinada com aquilo que é a arquitectura de imitação. É interessante ver como as pessoas aqui vivem isso e vêm do resto da China para visitar isso”, acrescentou.

À saída do encontro com os escritores, quando já tocava para a aula seguinte, os alunos confessavam estar de "barriga cheia".

José disse à Renascença que tinha gostado muito da sessão, "porque os escritores não se afastaram de nós, pelo contrário até nos deixaram fazer a grande quantidade de perguntas."

A proximidade deixou este aluno com "vontade de ler os livros deles". E a Alice, de 12 anos, confessou também que gostou “de saber as aventuras que os escritores passaram e que com essas aventuras escreveram muitos livros".

Elsa Alves, professora de Português na escola, explica à Renascença que a ida do festival ao encontro dos estudantes foi "uma oportunidade para os alunos terem contacto com os escritores portugueses, com o mundo cultural português", o que, "dada a distância a que estamos do país e sendo o curriculum português, é para eles uma mais-valia".

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