www.publico.ptpublico.pt - 19 jan 17:21

Albert Serra, meditação sobre a finitude

Albert Serra, meditação sobre a finitude

Os trabalhos de Albert Serra são intensas reflexões sobre a maneira como tentamos combater o fim através da ilusão de podermos ser mais do que a natureza.

Albert Serra (n. Barcelona, 1975) é um realizador com uma obra caracterizada não só pela sua forte ligação à literatura, mas também por uma muito particular experiência do tempo. Se Casanova, Drácula, Goethe, Rilke, Cervantes, entre outros, têm sido os seus guias, a modulação da experiência do tempo tem sido a sua matéria. Dizer que um cineasta tem no tempo a sua matéria é uma evidência, mas no caso de Serra é importante realçar esse aspecto porque é a modulação do tempo (da sua percepção interna e externa) que vai sendo experimentada de diferentes modos (em filme, instalações vídeo e performance) ao longo da sua obra.

Nos seus trabalhos que agora se podem ver em Lisboa — desde todos os filmes na Cinemateca, às vídeo-instalações no Palácio Pombal e à performance na Galeria Graça Brandão — percebe-se que a passagem da sala de cinema para a de exposições corresponde a uma radicalização dos seus gestos que é detectável, principalmente, em dois aspectos.

Roi Soleil

Comissário(s):Alexandre Melo
Artista(s):Albert Serra

Retrospectiva de Albert Serra

Comissário(s):Alexandre Melo
Artista(s):Albert Serra

O primeiro diz respeito à duração: tanto as vídeo-instalações como a performance representam para o espectador, em condições normais, um desafio difícil de superar já que a sua experiência completa é uma quase-impossibilidade. Os vídeos vão das 101 horas de Els tres porquets (2008) às 15 de Singularity (2015), ao passo que a performance Roi Soleil (2017) tem 20 horas. Esta duração monumental, que implica a incompletude da experiência, acentua qualquer coisa relativa não só às obras, mas à finitude do espectador e ao carácter provisório dos seus juízos, das suas ideias, das suas palavras. E não se trata de nenhum tipo de alusão ao papel do espectador contemporâneo caracterizado por uma certa preguiça e a sua preferência pelo entretenimento fácil — é a estrutura interna das obras de Serra que convoca as ideias de incompletude e fracasso.

Els tres porquets foi, à data da sua estreia na Documenta em Kassel de 2008, um work in progress: o realizador estava a filmar e, diariamente, acrescentava uma hora à obra que os espectadores da grande exposição alemã podiam ver. Em Lisboa, o primeiro vídeo da retrospectiva no Palácio Pombal são imagens não editadas da performance da galeria no dia anterior. Portanto, não é só a duração monumental destas obras que constitui um impedimento, mas é a sua natureza interna que caracteriza qualquer relação com estas obras como fragmentária, incompleta, provisória.

O segundo aspecto da tal radicalização na passagem da sala de cinema para a de exposições acontece na maneira como em Roi Soleil desaparece a mediação pela imagem e no seu lugar dá-se um confronto directo entre os corpos do espectador e do performer. Um confronto provocado não só pela co-presença aqui e agora do performer e do espectador, mas sobretudo pela maneira como aquele actor — Lluis Serrat, presença habitual nos filmes de Serra e usando a mesma metodologia e princípios ético-estéticos de construção de personagens — interpela o espectador. A performance consiste em, durante uma semana, quatro horas por dia, Serrat mostrar como é que um rei morre transformando-nos numa espécie de testemunhas dos últimos suspiros, movimentos e olhares de um moribundo.

A relação com o filme Luís XIV é clara e assumida, mas aqui o espectador é convocado para aquela morte como parte integrante da cena, da imagem e do filme por vir (toda a performance, que terminou na quinta-feira, 19, foi filmada e resultou num novo trabalho de Serra, com estreia marcada para hoje, 20, também na Galeria Graça Brandão, que o mantém visível até 29 de Janeiro).

Esta não é uma experiência de tranquilidade, mas de desconforto: um quase-morto a olhar-nos nos olhos e a levar-nos para a o seu espaço interno. O desconforto do moribundo no seu corpo com dores, deitado no chão duro e frio do fosso da galeria, rodeado de poucos objectos, transpõe-se para o espectador que se vê tomado por aquele momento de contemplação do abismo que é uma vida.

A dupla impossibilidade que descrevemos é muito conveniente aos trabalhos de Serra que se podem caracterizar, de um certo ponto de vista, como uma intensa meditação sobre a finitude humana e a maneira como a tentamos combater através da ilusão de elevação acima da natureza: Luís XIV, o Rei Sol, serve como metáfora dessa ilusão racionalista e progressista (de que D. Quixote, Drácula e Casanova são outras variações) de podermos ser mais do que a natureza. Também o poeta Virgílio quando, pela mão de Hermann Broch, contempla as suas últimas e derradeiras horas se dá conta dessa ilusão e diz para si mesmo: “Esta vida sempre desprezada e sempre de novo vivida, ele tinha abusado dela, tinha-a maltratado, para se elevar a si próprio, sobre si próprio, sobre todos os limites, sobre toda a temporalidade, como se para ele não houvesse queda, como se não tivesse de regressar ao tempo, à prisão terrena, à natureza de coisa criada, como se o abismo não se escancarasse para ele.” Palavras estas que poderiam tão bem servir como descrição dos pensamentos derradeiros de Luís XIV que governou sozinho, que se imortalizou com a construção de Versalhes, mas que fracassou na sua ambição desmedida em ser como o sol: queria ser o Rei Sol detentor do poder de tornar visível (e possível) o mundo.

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